segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Introspectiva 2011

Ontem, deitado no canto de uma quarto minúsculo, rodeado por pessoas bêbadas e confusas, ficou muito claro que esse foi o ano mais intenso que já aguentei. É o retrato de uma juventude metade Skins (ingênua e entorpecente), metade Friends (pelas piadas sem graça), com molho de South Park (pelo nonsense violento) e borda de Ugly American (pelo misticismo de mal gosto). Desesperados por referências e financeiramente insatisfeitos, usamos o restinho de vodka barata pra fazer coquetel molotov.

Não faço listas, nunca, e penso se talvez é a hora de começar. Não tenho muitas metas definidas e está difícil pensar agora porque acabei de acordar. Ontem pensávamos nos nossos happy hours e ficamos um pouco com medo de, ai, todo o material fotográfico e gravações caírem na imprensa. "A Decadência da geração Y" estampada nas publicações locais e nacionais, ecoando na TV aberta, envergonhando as famílias brasileiras. Decidimos, por fim, lançar nós mesmos essa compilação ousada. A celebração de um estilo de vida destrutivo. Mas não agora, ainda precisamos causar boa impressão. Adianto que será melhor consumido na versão pra Ipad.

Voltando, acredito que fazer listas envolve ter uma noção de prioridades. Certo, a primeira é terminar minha monografia. A segunda é conseguir de vez o certificado de proficiência. A terceira é me dar bem no emprego. A quarta é ler todos os livros que, em 2011, não passei da introdução bem como ver os milhares filmes que minha irmã baixou ilegalmente por torrent (nota mental: fazer um filtro entre as comédias, os romances e as comédias românticas). Quinta e última, pra não sobrecarregar as expectativas, é desenvolver uma identidade textual - calma, será copyleft.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

It Blogueiro

Minha primeira compra online foi um livro. Tinha todo aquele medo de cair em treta, meus pais desaprovaram, deram um chilique por causa dos dados, mas deu certo. Desde então, já pus nos carrinhos eletrônicos celulares e até bichinhos de pelúcia que queria dar de presente. Então, faz um ano ou dois, passei a comprar roupas online. Talvez por preguiça de ir ao provador, talvez pela pedância, quem sabe.

Mais recentemente descobri a Asos, um dos poucos motivos pelos quais uso o cartão de crédito. O título da loja é "The World's Biggest Online Wardrobe", a meu ver muito bem conferido, e funciona seja entre os produtos mais conservadores ou hipsters wannabe - e com muita coisa wereable num país tropical. Não sou fashionista, podem comprovar se me virem no 406, dormindo nas poltronas no caminho pra casa depois do expediente.

Primeiro, a Asos entrega em todo o mundo e não cobra frete – se entrega em Teresina, certeza, entrega em qualquer lugar. Segundo, aceita paypal, o que torna a transação um pouco mais barata e segura. Terceiro, os preços são coerentes e às vezes razoáveis (não iludo meus cabides, vou primeiro na sessão Sale). Quarto: procurando bem, é fácil achar algo mais legal e barato do que você jamais pensaria em achar aqui.

Sim, demora. A primeira compra demorou 20 dias, a última, dois meses. Sim, se passar de U$50,00 a mercadoria é taxada. Sim, vicia - cheguei à minha tímida décima primeira compra e prometi dar uma parada até abril, mas né. Fora a parte consumista, a Asos tem sessões interativas e de conteúdo original singulares como o blog Press Play que revela alguns nomes poucos explorados pela indústria fonográfica - e muito utilizados por indies para se gabar.

Das piadas, o alvo

Acordei pouco antes das quatro da madrugada, tomei um banho rápido e esperei o telefone tocar. Não demorou muito, estava do lado de fora de casa, subindo numa moto, sem capacete. Fomos para a casa do cinegrafista, daí pegamos os outros integrantes da equipe de carro. As filmagens eram em um município vizinho e tínhamos que chegar antes das seis. Durante a viagem, cerca de 40 minutos, fui no banco de trás, no meio. As curvas da estrada, caso pudesse ser vista de cima, formariam a caligrafia de "tragédia".

Chegamos com antecedência e esperamos na porta da garagem de onde sairia o ônibus escolar. Nosso objetivo era registrar a rota pela qual ele passava, buscando os alunos. Todos saíram do carro para tomar um cafezinho. Como tinha passado aquele tempo todo em situação pouco confortável, preferi esperar no banco. Sem as outras pessoas, o espaço extra era um convite e bastou achar um lugarzinho bom para encostar a cabeça. Terno e inevitavelmente: dormi.

O jornalista me sacode porque, finalmente, é a hora de irmos, o ônibus está de saída. Ele, os cinegrafistas e o motorista/fotógrafo, todos riem muito. Em pouco tempo entendo o porquê. Era minha foto na tela de um celular: esparramado no banco de trás, com uma pouco atrativa boca aberta. Se fosse um vídeo, eles diziam, daria pra me ouvir roncar. Meu sono estampado na cara atrapalha o sorriso amarelo quando vejo a parte de cima da tela, numa barrinha azul está escrito “Facebook”. Faz parte do meu lugar na agência aguentar diariamente certas doses de sadismo, então relevo. Sou o estagiário.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

John Kenn


O dinamarquês John Kenn é escritor e diretor de programas infantis. No tempo livre cria um universo particularmente monstruoso em post-its. Lembra um pouco o trabalho de Maurice Sendak (Where the Wild Things Are).


O blog dele (aqui) para mais ilustrações - que queria muito ter na geladeira, ao invés de simples "acabou o sabão em pó".

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Old but gold

Yako veio aqui em casa depois do trabalho. Tomamos um cafezinho com minha mãe daí fomos fazer aquele programinha delicioso: ver os álbuns de fotos da infância. O constrangimento pode ser traduzido em três fotos.


Atenção para o momento resgate quando eu era loiro feat lindo (antes da radiação ter me transformado). A foto é de outubro de 93 e tirada em viagem à Canindé, provavelmente pra pagar/fazer alguma promessa de adultos desesperados. Turismo religioso, quem nunca?


Esse dia eu não faço idéia do que rolou. Certamente bebi. Percebam minha postura de mini-indie misógino.

Turminha do meu.fuking.maternal. Quem se reconhecer me contata nos comentários, ok. Lembro de algumas pessoas, porque tenho memória eidética (só que não). Pensei em não dizer quem é quem por responsabilidade jurídica, mas seria muito ‘Q?’ ser processado por isso. Das meninas ali está a Catarina, que vomitava o café todo dia que deus dava. E sabe como é criança, quando sente o cheiro de vômito, faz igual. Ta aí a difusora da bulimia. Sorridentes Adelaide e o Alisson, primos, andavam junto o tempo todo e por isso eram chatos às vezes. Me recuso a falar sobre ele porque é tipo vizinho de bairro e aqui a gente paga dízimo pra não ser dizimado. Fica o apelo à UPP. Continuando, temos Indira, cuja mãe penteava bem direitinho pra ela se bagunçar toda. Muito danada. Ao meu lado tem o Elias, meu melhor amigo na época (que talvez veja esse post e passe a me odiar). Encontrei no Facebook uns dias atrás e o adicionei! O loirinho é o Wesley. Reencontrei com ele um dia por acaso, trocamos telefone e tudo. De cantinho o menino mais bonito, o Vitor, olhos azuis e tudo, mas chorão. Por fim, o "Cambotinha", cujo bullying pesado não me permite lembrar o nome dele.

Louca dos Gatos


Que o mundo tá cheio de gente maluca a gente sabe, difícil é esbarrar com uma senhora com, atenção: bipolaridade, depressão, síndrome do pânico, toc, dda e mais algumas dúzias de neuroses não catalogadas pela psiquiatria contemporânea. De A a Z, ela conseguiria citar um sintoma e um remédio. Muito tenso já que, mesmo com aquelas olheiras, ela não parecia ter mais de 40.

Pirar é mais fácil do que se imagina.
Segundo a OMS uma a cada quatro pessoas desenvolve algum tipo de problema mental ao longo da vida. Lendas dos quadrinhos o reteirista Grant Morrison e o ilustrador Dave McKean fizeram uma graphic novel, Asilo Arkham, que é o hospício pra onde o Batman manda uma galera errada de Gothan. Em uma passagem um personagem explica que a "distância" entre um homem mentalmente sadio e um insano é apenas “um dia ruim”.

O dia dessa senhora não era o primeiro, mas apenas um de muitos dias ruins. Ia de casa pra sessão da terapia quando uma bicicleta quase a atropelou, desencadeando uma crise. Ela se jogou em uns arbustos e começou a gritar, aterrorizada. Nossa turma do happy hour esbarra com ela, ainda em trauma. Depois de uns goles d’água, se acalma um pouco e a levamos para o consultório. No caminho ela conta umas e outras, enquanto a gente fazia o download do desabafo. Entre os dramas ela fala do marido, que a trocou por uma mulher mais nova, da família ausente, do consumismo patológico, da solidão e, claro, do rol imenso de doenças.

Chegamos à clínica e nos despedimos. Rolou uns abraços e ela disse que queria filhos como a gente. Pensei em “não, obrigado, liga pro GAF se precisar”, mas dei só um sorriso e assenti com a cabeça porque ela tinha lindos olhos azuis e não reclamaria caso herdasse. Louca dos Gatos é o mais novo nome na lista de encontros aleatórios formadores de personalidade. E em 2030, quando a depressão for a doença mais comum do planeta, lembrarei dela com carinho.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Velas apagadas

Tudo isso pode soar meio sem nexo, estranho e talvez apocalíptico. Faz um tempo li uma entrevista do Zygmunt Bauman, um senhor ícone da modernidade líquida. Em certa parte, ele dizia que sobrou pouco para nós, jovens: que todas as promessas de um mundo melhor são furadas, todas as instituições falharam e continuam em constante tilt, entretanto uma permanece digna de fé: nós mesmos, a instituição “Eu”. Na época julguei como radicalmente egoísta. Em passagem de um de seus livros, diz que muitos dessa “geração y” descolada e cheia de dramas nunca conseguirão um emprego ou um relacionamento fixo, além de sermos a sociedade do refugo, da superprodução de lixo e do consumo supérfluo. O pessimismo de Bauman é provocante. Às vezes, depende bastante do Prozac da galera, pode parecer a única interpretação razoável.

Qual seria sua mensagem para os jovens de hoje?

Gostaria que tentassem, apesar de tudo (e talvez esteja aí o elemento de nostalgia que você notou), apesar de todas as tendências em contrário e de todas as pressões de fora, reter na consciência e na memória o valor da durabilidade, da constância, do compromisso. Eles não podem mais contar, como a antiga geração, com a natureza permanente do mundo lá fora, com a durabilidade das instituições que tinham antes toda a probabilidade de sobreviver aos indivíduos. Isso não é mais possível e, na verdade, a vida humana individual, apesar de ser muito curta, abominavelmente curta, é a única entidade da sociedade de agora que tem sua longevidade aumentada. Sim, somente a vida humana individual vê crescer sua durabilidade, enquanto a vida de todas as outras entidades sociais que a rodeiam — instituições, idéias, movimentos políticos — é cada vez mais curta. Assim, o único sentido duradouro, o único significado que tem chance de deixar traços, rastos no mundo, de acrescentar algo ao mundo exterior, deve ser fruto de seu próprio esforço e trabalho. Os jovens podem contar unicamente com eles próprios e só haverá em suas vidas o sentido e a relevância que forem capazes de lhes dar. Sei que essa é uma tarefa muito difícil... mas é a única coisa que posso lhes dizer.

Ok. Chuck Palahniuk é um dos escritores que mais gosto. Motivos não faltam desde “Cantiga de Ninar”, primeira coisa que li dele antes de ‘Clube da Luta’. Depois veio “No Sufoco” e “Assombro” – cenário de muita sujeira, parafilias e neuroses. Hoje a tarde um grande amigo me veio deixar o “Snuff” e o “Diário”. Neste último, um dos personagens, Peter Wilmot, já foi muito rico, mas agora está em coma. Logo no início, no segundo escrito, de 22 de Junho (dá até pra ler aqui), traduz uma das coisas que se passa comigo além da descrença e do descrédito, tão assustadoramente descritos no quote – a velhice. Cadê meus Renew? risos. Não sei lidar com aniversários. Muito ou pouco, bom ou ruim? Tem gosto de euforia e adrenalina, de aposta, que supera o medo de falhar.

Percebam que Flapinho, outro aniversariante do mês, está mais feliz do que eu.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Aquecer

O Jone é um primo formador de personalidade que tenho por parte de mãe. A gente tem a mesma idade e passamos juntos bons momentos na infância, no interior do Maranhão. Nossa rotina se resumia a andar de bicicleta e tomar um sabor diferente de sorvete por dia (muitas vezes a diferença ficava a cargo apenas da cor). Recentemente, tivemos um reencontro após oito anos. Ele cresceu o dobro do meu tamanho e já estava casado. Falei disso na época, neste post.

Hoje, alguns meses depois, ainda mantemos o contato, com alguma regularidade. Ele se separou da esposa adolescente e agora mora no sul, levando uma vida tensa e braçal. Essa noite o Jone me ligou, disse que era a noite mais fria que ele enfrentava até então. Sozinho, num apartamento mal dividido, a sensação era estar no Alaska, num cenário branco e gelado em todas as direções. Eu contei que sai dos empregos porque, no momento, me formar era mais importante; disse pra ele vir no ano novo e que aqui é onde, como ele bem sabe, o termômetro sempre está acima dos 30. Rimos juntos de alguma lembrança, nos desejamos sorte e então desligamos meio sem jeito - um silêncio onde caberia um milhão de abraços.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Rio de Janeiro taggeado II

Especialmente aos sábados, debaixo do viaduto que passa em frente da Estação das Barcas, na Praça XV, rola uma feirinha de antiguidades. São centenas de barraquinhas com os mais variados, intrigantes e antigos itens. Em Teresina tem algo parecido, o Troca-troca, mas aqui a ênfase é na utilidade (e na procedência duvidosa) e lá o conceito é mais elástico, abrangendo colecionáveis e uma veia mais design, exalando kitsch. Coloquei em miniaturas pra não bagunçar muito o post.

domingo, 9 de outubro de 2011

Núvem Negra

Em suas comédias, Oscar Wilde desenha a sociedade burguesa européia de sua época com pinceladas de cinismo, prepotencia e hiprocisia. Um bando de gente insuportável, resumindo. O tempo não foi suficiente, entretanto, para me negar a convivência com uma réplica tupiniquim daquele antro.

Eu tenho aqui o costume de usar outros adjetivos, adaptados para meu contexto de pessoas irritantes: gratuitas, avulsas e aleatórias. Cada uma dessas palavras está presente em meu dia-a-dia para poupar um léxico considerável de palavrões. Felizmente, apenas uma pessoa conseguiu receber esse título tríplice: a Mother Monster.

Meu objetivo, bom abrir o parêntese, não é paz de espírito, então meu coração se permite, quando dá tempo, a ficar preenchido até a metade de uma mistura venenosa de raiva e nojo.

A Mother Monster era uma pessoa bastante difícil. Em boa parte das situações os motivos para suas decisões eram absolutamente irrelevantes, o que não a impedia de tomar atitudes super enérgicas e aditivadas com zombaria. O transtorno de multipolaridade batia forte, out of the blue, e Mother Monster estava lá, assustando as crianças no parquinho. Coisa sinistra.

Eu acredito que ela costumava ficar no espelho, repetindo pra si mesma que era a melhor e mais capaz pessoa que passou pela Terra até então - e, né, só aceitava ser tratada como tal. Imagino como devia ser difícil, aguentar o fardo de ser tão superior, pertencer a um grupo ímpar de iluminados - que com certeza sabem de algo que eu, você e todo o resto não sabemos.

Sou civilizado, ando por aí me gabando inclusive. O meu desejo, quando não gosto de alguém, é que nossos caminhos sejam extremamente independentes um do outro, a ponto de podermos nos ver, sentar num bar, tomar uma cerveja e pá, no phone calls, sem pedir nada emprestado, sem vir aqui em casa ver um filminho. Desejo dinheiro, felicidade e milhares de quilômetros de distância.

Rock in Rio 2 de outubro

Só percebi que tinha feito a coisa errada quando chego na entrada e Pitty está no palco mundo. Lembrei que em seguida seria Evanescence. Daí em diante, me comprometi com o alcoolismo e pouco a pouco a Cidade dos Posers foi se transformando num lugar agradável, antropologicamente falando. Desconsiderem minha memória incompetente.

No show do Soad, passei no lugar errado na hora errada e tomei um belo catiripapo. Depois começou a chover. Um grupo samaritano me botou numa “capa” de chuva e tratei de achar um cantinho coberto para ouvir Guns n’ Roses – sem sucesso.

Fiquei no lugar mais silencioso: as cabines da Claro (com isolamento acústico). Você entrava nelas para falar no celular, entende. Dividi espaço com um casal carioca bem amistoso. Quando a chuva diminuiu, continuei procurando um canto coberto onde pudesse ouvir o show, só ouvir, repito, porque tava frio, molhado e não queria mais apanhar da multidão. Finalmente acho. E caio no sono. Patético.

Acordo com o Axl arranhando alguma coisa entre 'Sweet Child O’Mine' e 'November Rain'. Bateu uma vibe errada e me preparei pra ir embora, a noite tinha acabado comigo e eu ainda tinha que enfrentar duas horas até chegar em casa porque o sistema adotado pela organização envolvia ONLY ônibus. Eu deveria ter ido só no sábado - evitado a chuva, a fadiga e corações partidos.

Rock in Rio 1º de outubro

Cheguei no primeiro fim de semana do festival, mas só havia comprado tickets para o último sábado e domingo. Sinceramente, sem medo de ser chamado de playboy, só queria ver o show do Coldplay. Ou a cidade do rock não é tão grande quanto parece no mapa, ou talvez o aperto, o empurra-empurra e as filas fizeram tudo parecer um formigueiro humano. Logo quando cheguei, me perdi dos amigos e assim continuei até a hora de voltar pra casa. Funciona como analogia para outros campos da minha vida, ok.

Minha expectativa sob controle, foi possível aguentar os shows de todo resto. Só comecei a me aproximar do palco durante a sofrível apresentação do Maná. Mais de 100 mil bocejos, contabilizou a organização do evento. M5 tampouco me interessava, mas serviu para sair do coma induzido pela banda anterior. Vamos lembrar que minha versão leva em conta, tsctsc, meu ânimo. Quem quiser elogios para seus artistas favoritos não está no lugar certo.

Minha vontade maior era que o Coldplay enlouquece e resolvesse tocar só as músicas do X&Y. Fantasias a parte, o repertório (set list, pela pedância) me agradou completamente. Sabe, o show foi bem mágico. Era o último da noite. Chris deve ter acompanhado do camarim e se compadeceu por todos aqueles que passaram por Maná e sobreviveram, abriu o espetáculo com um “Obrigado por esperarem tanto”. Daí em diante, eu estava em boa companhia. Foi ‘o melhor show da minha vida’? Sim, foi.

Chris Martin no Palco Mundo
Recursos fáceis como chuva de papel picado, pedir resposta de ‘heey-hoow’, apontar o microfone pra galera e pôr a mãozinha no ouvido, ficam menos óbvios quando misturados com talento. Prova maior de carisma, e justamente pela simplicidade pueril, foram as músicas “Mas que nada” (Jorge Ben) e um “Olê, olê, olê”, carinhosamente dedilhadas por Chris. Ele também merece méritos por pichar o palco com “Ri♥”, abrir “Fix You” com os versos de “Rehab” e cair extasiado com os gritos de milhares de noveleiros cantando o refrão chiclete de “Viva La Vida”. O que vale é a perfomance.

Chorei feito uma criança que sente saudade dos pais, quando em uma viagem de férias à casa de parentes no interior. Em verdade, me despedia de minha adolescência loser, cheia de poesias ensimesmadas, melodrama mexicano e revoltinhas mimimi. Encerrar ciclos com um ritual, quem nunca? Naquela multidão, a cena era um cara gritando(!) as músicas e com as mãos pra cima, tentando agarrar fogos de artifício - e conseguindo. Adeus, anos 00’.

Meu troféu.

Rio de Janeiro taggeado

Estava no Rio, passei um tempinho. Deveriam fazer mais músicas sobre o céu nublado e o frio, porque a Bossa Nova vendeu essa imagem de verão o ano todo, pouco real quando desembarquei. Em Teresina a gente usa roupas só pela formalidade, então posso dizer que 15ºC (mais vento), não me são lá muito agradáveis. Quando acordei com o sol na janela pela primeira vez, topei pegar um bronze dali mesmo.

Dando uma de turista deslumbrado, a geografia da cidade é desconcertante. Só tinha ido por cidades predominantemente planas e esbarrar com morros em toda esquina tem seu charme, apesar de boa parte deles exalarem perigo. Na verdade fiquei a primeira parte da viagem em Niterói, cidade vizinha, mas ia ao Rio diariamente - um percurso desgastante, que aconselho enfrentar na base de dramin. Fora isso, o tour era ótimo.

Tentei diagramar as fotos (tiradas por mim) em miniaturas, cliquem para ampliar.



quarta-feira, 21 de setembro de 2011

GPS da depressão

Hoje de manhã acordei mais tarde que o habitual. Nem me chateei em perder a carona e ir de ônibus até a agência. São só 20 minutos, tudo bem. Não que estivesse de bom humor, nada contra, mas era outra coisa. Levantei sem preguiça e igualmente sem pressa. Lavei o cabelo, tomei café, arrumei a mochila. Saí sem dar bom dia pra ninguém. Não que eu estivesse de mal humor, nada contra, mas era outra coisa.

O futuro se desenha quando se fecha os olhos, imaginava. Tentei e não deu certo. Pisquei, pisquei, tentei de novo e nada. Fiquei assustado porque, como assim, cadê os planos da pessoa que fecha os olhos e não se vê (seja no topo ou no fundo). Não soube lidar com a situação e fiquei bem mimimi. Conversei com minha mãe outro dia, falei que tava meio largado e que, “sério mãe, como faço?”. Ela me olhou um pouco consternada e resumiu com um “é natural, você é jovem”.

Holden, em O Apanhador no Campo de Centeio, é um cara meio perdido e justamente por isso eu gosto da história.Tem uma passagem que me vem na cabeça sempre :

Nem sei porque estava correndo - acho que era só porque me tinha dado vontade. Depois de atravessar a estrada senti um negócio esquisito, como se eu estivesse desaparecendo. Era uma dessas tardes meio malucas, fria pra burro, sem sol nem nada, e a gente se sentia como se estivesse desaparecendo toda vez que atravessava uma estrada.
Estou fora da rota, andando na neblina.

sábado, 10 de setembro de 2011

Via única para Marte


A Lua parece ter saturado os poetas, os amantes e pelo visto até os cientistas. Vou confessar também que olho só de vez em quando. Com o corte de gastos nos investimentos da NASA, abandonaram o projeto de um emocionante retorno da raça humana em missões tripuladas. Uma vez em pauta esta aventura galáctica, fala-se da exploração de Marte até 2030, e como alternativa para diminuir os custos (igualmente astronômicos) deram a sugestão de enviar uma missão sem volta, uma vez que esta etapa é a mais dispendiosa.

Ou seja, os enviados aceitariam ir, mas sem garantia alguma de retorno e, ok, morrer por lá mesmo. Tenso? Considerem o argumento: alega-se um risco aceitável frente ao ganho científico. Outros artigos do nerdíssimo Journal of Cosmology, o espírito aventureiro e desbravador são ressaltados, evocando as grandes navegações, a ‘descoberta’ do novo mundo e vai além, quando fala da honra de representar a Terra e do encanto que seria vê-la de Marte da mesma forma que o assistimos daqui – apenas um corpo brilhante no céu. Vale lembrar que 40 anos depois da Apolo, ninguém deu lá outros grandes passos no cosmos.

O desafio em colonizar Marte é prover e sustentar a existência dos alienígenas (nós, no caso) em um ambiente não apenas hostil, como inóspito. Minha missão, vejo, é apenas menos megalomaníaca/interplanetária. Consiste em sobreviver a uma série de pequenas catástrofes diárias (furacões, tornados e tsunamis) afetiva e profissionalmente falando. Feito astronauta, me sinto chegando agora, porque tudo é meio novo e leva um tempo pra se acostumar com o console, a lidar com o painel de botões. Vou errando porque não deixaram um manual. Do lado de cá, tento cultivar uma terra árida, sem tanto sucesso. Chove pouco e passo fome. E só pra variar, estamos em guerra.

**

PS.: Spielberg trouxe um marciano pra Terra certa vez. Alimentou, deu abrigo e apresentou uma turminha de amigos do barulho com quem aprontou altas confusões, mas assim que ele entendeu como funcionava a primitiva forma de comunicação daqui, saiu logo dizendo “quero voltar pra casa!”. E voltou, provavelmente muito chateado com a gente, porque na minha cabeça, Guerra dos Mundos é a vingança do pobre E.T.=/

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Espinha dorsal

Tenho uma coluna e a amo. No ambiente doméstico, naturalmente, sento de um jeito meio livre, indomável. A questão se tornou preocupante a partir do momento que comecei a trabalhar em casa, e não simplesmente trazer o trabalho pra cá. Descrevendo uma curva sinceramente tensa, minhas costas mais parecem uma intervenção geográfica, fruto do movimento das placas tectônicas.

Me preocupo, repito, e adiciono uma complicação genética - minha avó, minha avozinha, parece uma tartaruguinha, andando devagar e côncava. Como resultado de toda essa tragédia física, estou me policiando com a postura. Tarefa inglória. Questão de prática, bem sei. Em anos de sala de aula, por exemplo, sempre escorreguei um pouco pra frente até alcançar o fundo da outra carteira com os pés. Um hábito irritante, principalmente em dias de prova, quando só entendia a comoção do colega da frente ao ouvir "para de balançar, maldito".

RPG, Pilates, Aikido. Aceito sugestões, mas estou quase convencido a só comprar uma cadeira nova, tipo oficce. A grande vantagem é poder brincar de rodar no fim do expediente, ou ir até a cozinha só pegando impulsos e arrastando as rodinhas. Infância - estou fazendo isso errado.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Volto porque ainda sei o caminho

Nem sei, perdi o ritmo. Deveria ter atualizado semana passada, quando tive uma Diversão Antropológica sensacional (que espero ter espírito pra escrever), mas fui atingido por uma vibe errada e agora estou em rota de colisão. Troço tenso. Minha monografia vai mal, admito, pouco foi escrito. Penso em apelar para drogas estimulantes, mas eu até me imagino hiperativo, correndo pelado pela casa e parando pra conversar as manchas no teto. Com minha sorte, efeitos colaterais serão tudo que conseguirei.

Daqui exatamente um mês parto pro Rio. Falei isso pro meu chefe ontem, que não sabia até então. Eu disse "serão 10 dias, legal né, qtau?" e recebi um olhar confuso, incrédulo e ainda sim amistoso. Senti na ponta da língua o doce sabor do desemprego. Ah sim, vou pra lá ver Coldplay, a trilha sonora da minha adolescência loser - que insiste em se prolongar. Vale a aventura, porque não quero passar a vida toda indo em covers ou tributos sofríveis, nem ir num show deles quando todos os integrantes estiverem a cara do Iggy Pop. Não mesmo.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Comeback

É uma situação particular. Você volta pra casa depois de um tempo. Os desenhos na parede do seu quarto. Todos continuam lá. Sua mãe ainda dá bons conselhos. Seu pai esquece a barba crescida. O porão não te assusta mais. Você já é grande demais pra se esconder no armário. Seus antigos vizinhos se mudaram, mas as assinaturas que deixaram na àrvore do jardim permanecem. Então, no fim da tarde - com uma estranha sensação de ouvir os gritos das brincadeiras lá fora - você imagina como tudo era naquela época e finalmente se dá conta que perdeu o modo que costumava sentir as coisas. E nesse ritmo, essa amnésia quase injusta sempre vence a corrida.

Provavelmente alguém restou, deixado pra trás. O nome dele é Abílio. Uma cena constrangedora. Seus olhares se cruzam no supermercado. Ele engordou mais do que todos os outros garotos - e garotas - juntos. Atualmente trabalha numa loja de artigos de artilharia - é o que diz na logomarca da farda. Ele pode achar que a barba acobertou sua identidade, mas passar mais de 30 segundos olhando arrebataria qualquer disfarce. O plano B dele é encarar nervosamente as prateleiras de chocolates e esperar que você passe direto. É o que você faz, mas no fundo sabe que não foi a coisa certa.

*
Postado por mim originalmente no Volúpias Celestiais que esbarrei hoje.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Crise dos 20 - Cartilha de auto ajuda

Que meus tios não me vejam por aí - eles perguntarão o que eu fiz com meu ‘talento’. Esperam algo brilhante, imagino. Decepciono na medida em que troquei minha, opa, virtuose, por horas desperdiçadas em redes sociais e pornografia. Que não perguntem minhas expectativas, quando nos esbarrarmos no shopping, ou no supermercado. Troquei um futuro salário de 5 digítos por dívidas atuais de apenas 3 – calculei mal, uma vez que fiz escolhas um tanto equivocadas.

Em Anos Incríveis, seriado com todo um clima do sonho americano da década de 70, no episódio Coda, o protagonista, Kevin Arnold (vivido pelo ostracizado Fred Savage) , no auge da infância, anunciava:
"Quando somos criancas, somos um pouco de cada coisa: artista, cientista, atleta, erudito. Às vezes parece que crescer é desistir destas coisas, uma a uma. Todos nos arrependemos por coisas das quais desistimos. Algo de que sentimos falta, de que desistimos por sermos muito preguiçosos, ou por não conseguirmos nos sobressair, ou por termos medo.

Gostaria de discordar, mas, percebam, não tenho fatos que provem o contrário.

O meu erro é ter feito tudo de lápis pra depois passar a limpo. A crise dos 20 não envolve realização, de cara, mas exige que esteja desenhado um caminho, que rotas estejam traçadas. Urge coordenadas. Se trata de um senso de direção e um senso de urgência. Ambos dão margem para uma perspectiva sombria onde tudo dá errado, o carro capota duas vezes, lança todo mundo no penhasco e ainda explode. Quem tem planos tem medo.

Como mais de 1/3 dos brasileiros tive uma formação cristã, da qual assim que tive chance me afastei – pra preservar meu senso de humor. Entretanto, uma coisa ainda me passa na cabeça com frequencia, justamente a parte de que todo sofrimento é recompensado, mais dia menos dia e portanto deve ser valorizado, inclusive, visto como necessário. Sem o referencial sacro, essa é a mesma metáfora da megasena (“um dia o ganhador pode ser você, continue apostando”).

Quando você não tem fé no divino, é imperativo que tenha fé em si mesmo(em carne, osso e resfriados). E assim como a primeira, ela também falha, oscila, ainda mais quando somos tão limitados e imperfeitos. É também uma questão de esperança e sobretudo de resistência. Afinal, quem não quer vencer a prova do lider?

terça-feira, 9 de agosto de 2011

BitterSweet

Semana passada a agência precisou de umas fotos para o site de um hotel porque novos itens estavam entrando no menu do American Bar. Resolvi praticar alguns princípios, então, não bebi em serviço. Certo, confesso, provei um drink sem álcool de maçã verde que estava ótimo =]. Abaixo, uma pequena amostra:

Fica a dica pra quem quiser me pagar uma bebida.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Pauta quente

Tem um lado do jornalismo que, convenhamos, é muito interessante: lidar com situações e pessoas incomuns. E o fato de coisas surpreendentes serem cada vez mais raras eleva tudo a outro nível, onde nem sempre a racionalidade está presente. Entretanto, os assuntos em questão se enquadram num número nem tão grande de temas, entre os quais um se destaca mais que os outros, em letras flamejando: s-e-x-o. Daí que estou tendo experiência de produzir algumas matérias para, for real, um motel – ossos do ofício.

A primeira matéria que fiz (na verdade uma entrevista) com a personal.sex.trainer Tarciana Chuvas. Além disso, ela é sex coach, striptóloga e consultora em artes sensuais. Teresina evoluiu e eu não acompanhei? Do tipo, ok, mas aqui? Achei do futuro. Cabe o alerta: muito se engana quem espera baixaria.

Na entrevista, ela começou educada, polida, ciente de que alguns vêm cheios de dedos e armados até os dentes de preconceito. Um pouco mais a vontade, ela mostrou um ar descontraído (extremamente útil nas abordagens que exercita, acredito) e conversou com leveza e preparo, dedilhando aqui e ali algo mais provocante. O trabalho dela você pode entender [aqui], [aqui] e em uma visita ao blog totalmente autoral. E a entrevista você pode conferir no site do Garden (desconsiderem a diagramação equivocada que o wordpress dá aos conteúdos).