sexta-feira, 18 de maio de 2012

Sonar dia 12


No segundo dia de festival cheguei muito atrasado. Além da demora dos amigos, esqueci a identidade da Lee no hotel e deu o maior trabalho encontrar, com internet podre de celular, um e-mail onde tivesse o documento digitalizado pra mostrar. Não acredito que muitas outras festas aceitariam esse artifício.
Eski

Click Box usando o Ableton Live.

No SonarPro, peguei o finzinho da apresentação do cara do Eski, na qual ele falava das instalações e projetos de aplicação de tecnologia em espetáculos, principalmente da que rolou em Coachella pro Arcade Fire. Achei ótimo o conceito de fazer com que o público interaja mesmo com o momento. Depois entrou o duo brasileiro Click Box pra ilustrar o funcionamento de uma plataforma pra DJs chamada Ableton Live. Foi quando me toquei que não adiantava prestar atenção naquilo, não conseguiria entender independentemente da minha boa vontade. Era um espaço pra profissionais e não é o meu caso, sou totalmente ok em admitir.

Fui encontrar o pessoal no Hall, onde Alva Noto e Ryuichi Sakamoto, um “artista eletrônico virtual” e um pianista estavam batendo um papo estranho, cada um com sua linguagem. Demorou um tempo pra lidar com a cena. Sendo franco, é difícil falar do Sonar. Foi uma experiência bastante complexa e transformá-la em palavras é bem complicado. Pra começar não é meu universo de conforto, e em segundo lugar eu não estava nem um pouco interessado em cobrir, ahm, jornalisticamente, apenas em me permitir ao contato com um contexto distante do meu. E fico feliz em ter conseguido.

No Sonar Club depois de Rustie veio Flying Lotus, um cara de carisma incrível e de batidas inspiradas. Mas o que me fisgou mesmo foram as animações que eram ritmadas com o set dele. Animal. Uma passadinha no Mogwai me fez entender a presença de guitarras no festival: não eram acústicas, mas distorcidas. Engraçado que em alguns momentos parecia um coral etéreo sustentando uma nota – ué, mas a voz é fruto de cordas ( só que vocais), me toquei do óbvio.


Quando fui ver Justice, já estava bem doido - o que acho extremamente coerente. Foi impossível não dançar feito um idiota com aquele set desconcertante. Eles apelaram: We Are Your Friends é a prova disso. Pular foi involuntário. Por sorte estava entre pessoas que não ligavam a mínima. Não sou mais um adolescente, porque né. Meu sapato estourou e quase todos os botões da jaqueta foram arrancados com atrito da multidão. Um grupinho metido a interventores tascou umas linhas de tinta azul no meu rosto que me dava um ar alucinado.

Drama: perco minha mochila com minha câmera dentro. Corro pra procurar e a moça do staff me leva no Achados&Perdidos – mas não sem um (real) puxão de orelha. Até ela entender que eu não estava chapado e me respeitar, demorou um pouco. Brigado, moça.

Monstro.

Squarepusher. Nada havia me preparado pra isso. Nada. Por alguns momentos eu desisti da humanidade e me transformei num pacote de dados – não havia muito espaço pra coexistir com as ondas sonoras destruidoras e as projeções em led ultra impactantes. Lee começou a chorar: não porque estivesse de alguma forma emocionada, mas porque era muito difícil fechar os olhos. Ele, ao contrário, não teve uma gota de misericórdia e deixou todo mundo em transe. Foi quando fiquei com medo de dar um treco naquele teatro. Sei lá, um encanto assustador. Sabe aquele episódio de Pokemon que uma galera deu uns ataques epiléticos no Japão? Eleve à potência. Sério.

Ainda meio incrédulo, fui andando devagarzinho pra ver o Orlando (sim, essas pessoas  tem nome) do Totally Enormous Extinct Dinossaurs. Ele é, haha, tipo a versão masculina (e melhorada) da Claire, do Grimes. Um querido! Foi a maneira mais animada de terminar a noite.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Sonar dia 11

Quando a gente chegava na entrada, entregavam o óculos 3D (ao todo, foram distribuídos 15 mil). Pensei que, como geralmente acontece, não seria um recurso bem explorado e deixei guardado no bolso. Me enganei, sou obrigado a admitir, mas só perceberia isso depois da (ótima) apresentação de James Blake. Engraçado como aquela cena se repetiria: um cara em meio a uma pickup de botões, fios e luzes. Não haviam rockstars – era um festival sem guitarras (com algumas raras exceções).


Blake

Quando os primeiros acordes de The Robots ecoaram no galpão do Sonar Club, anunciando os quatro senhores do Kraftwerk, a projeção 3D foi disparada. A simplicidade dos pais da música eletrônica como a conhecemos foi uma aula propedêutica. Os princípios, eles estavam todos lá. O show no Sonar foi o compacto de uma retrospectiva de 8 dias de toda a produção do quarteto, no MoMa, realizada em abril desse ano. 


A tecnologia aplicada tornou tudo muito pouco diferente de mágica. Eles nos levaram pra uma realidade praticamente sem fronteiras – que é o conceito do festival inteiro: música avançada e novas mídias artísticas. 

O grupo alemão mudou: apenas um integrante original permanece. O contexto em que o Kraftwerk surgiu, entretanto, ainda está presente em sua obra. O pós-guerra e o mundo bipolarizado assombrado pelo terror da hecatombe nuclear parecem estranhamente recentes quando eles sintetizam Sellafield. Os números de Computer World são cruéis e o final da equação “Business, Numbers, Money, People” revela onde estamos no rank.



As coisas mudaram pra valer, afinal. Se a Alemanha dividida da década de 80 trazia em seu cabeçalho o socialismo e, portanto, a preocupação extrema com o ser humano, é ela hoje quem gere a crise européia – com base em medidas de austeridade questionáveis. A Grécia, emblema desse caos, sofre não por causa da relação homem-homem, mas pelo impacto de euros que nem sequer existem (são valores virtuais). E é essa a natureza da crise monetária mundial (ela é tanto de mercado quanto de governabilidade). É a vitória da máquina que Kraftwerk anunciam em The Man-Machine. E nós somos os robôs, eles já haviam deixado claro.

Um passeio pela superfície do planeta, pelos prédios da cidade, pelos números, pela França (de bicicleta) e pela música. E como eu estava precisando daquela Autobhan. 


Pude quase tocar tudo. Satélites passaram dentro do corpo de milhares de espectadores, na multidão. Um trem atravessa o galpão, “atropelando” os nerds desengonçados que dançavam de um jeito muito divertido e no mínimo autêntico. Notas musicais chovem e a música não pode parar. Quase sem fôlego, ouço as últimas ondas. Tiro o óculos 3D e, exausto, precisei descansar por algum tempo. Algumas pessoas não entenderam e mantiveram o adereço durante toda a madrugada.

Little Dragon

Na acústica perfeita do teatro do Sonar Hall, recobro a vitalidade com Little Dragon, uma banda (sem guitarras) sueca. A vocalista (função raramente presente nesse mundo eletrônico) é extremamente carismática e suas peculiaridades são bem vindas, principalmente em São Paulo: Nagano é metade nipônica, metade sueca e tem uma bunda de proporções latinas. Satisfeito com Little Man e Ritual Union, sentei um tempinho pra desamarrar os cadarços.  O show deles serviu pra me reavivar e seguir pelos outros palcos, mas sem interesse específico. 

Skream ft. Sgt. Pokes. Agressivos.

O Sonar Village era o lugar dos baladeiros profissionais. Infelizmente, nenhum deles me ofereceu drogas, mas, por sorte a atmosfera era lisérgica o suficiente e fiquei legally high. De volta ao Club, Chromeo é uma das últimas coisas que lembro do primeiro dia. Com a cabeça inundando de sons artificiais que só existiram ali, vou pro hotel digerir todo aquele fractal audiovisual.

terça-feira, 15 de maio de 2012

SonarPro dia 11 - Reactable



Quando comprei os ingressos pro Sonar SP no início do ano, não imaginava que seria surpreendido tantas vezes. Estou longe do que possa ser considerado um fã de DJs e sets, mas admiro muito as possibilidades da música eletrônica. Por isso acabei me inscrevendo no SonarPro, um espaço dentro do festival pra apresentação e discussão de novas tecnologias, plataformas, instalações e conceitos – esse conjunto tornou a experiência muito mais marcante.

A primeira atração da noite, pra mim, é justamente no Sonar Pro. Numa sala com pouco mais de 100 de pessoas, Günter Geiger, um dos criadores do Reactable explicou como ele foi desenvolvido e o potencial daquela mesa circular – "uma forma geométrica democrática". Criado em 2005 foi apresentado pela primeira vez na International Computer Music Conference, em Barcelona. 


O “instrumento” funciona com base em projeções. Os símbolos impressos nas peças, em cada faceta, são reconhecido por uma câmera e isso gera uma reação sonora específica. “É difícil pra gente, mas simples pro computador”, Günter ri quando um dos espectadores diz que aquilo parece uma coisa alienígena.

Não existem botões, controles, alavancas ou teclas. É um aparelho relativamente simples, intuitivo e de fácil manuseio. Uma criança amaria e um adulto sentiria o prazer infantil de uma brincadeira. Mas só na superfície, porque é possível ir cada vez mais fundo naquilo. Cada peça possui opções extras e quase ilimitadas de arranjo e interação. Isso fica muito mais claro na versão mobile, desenvolvida para Ipad – e em torno dela, principalmente, cresce a comunidade do Reactable

A tecnologia aplicada é cara e produzida em pequena escala o que justifica os 7.000 euros necessários pra comprar o aparelho original - instituições como museus e galerias são os clientes mais comuns. Isso também influencia na maior atenção que os desenvolvedores dedicam às versões móveis. A apresentação encerrou com uma demonstração de Gui Boratto, que utilizou o Reactable em algumas de suas composições. 

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Sofrer


Tive esse sonho hoje a noite no qual meio milhão de pessoas parava pra conversar comigo e eu não encontrava uma posição confortável. O tema era alguma coisa sobre organização, cada um vinha e dizia uma coisa diferente. Cansativo. Acordo de madrugada com uma puta febre e dor no corpo inteiro, como se tivesse sido alvo de um pelotão de fuzilamento com balas de borracha – o que é bastante plausível nesse país.

Como não tinha energias pra pedir socorro online ao Google, fui no quarto da minha mãe, walking dead, esbarrando em tudo. Ela acorda e fica rindo dos meus gemidos de dor, falando que eu não conseguiria ir pro Sonar. Achei cruel. Em resposta, tinha a solução: trocar todo meu sangue doente por litros de sangue sadio. Hemodiálise do desespero.  Ela achou engenhoso, mas preferiu me dopar com Tylenol. 

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Maquete


Gosto de pensar no processo criativo dos outros, o porquê e como as pessoas fazem o que fazem - suas conexões e a forma que organizam suas experiências. Me pego verificando plataformas e tentando entender o grau de envolvimento entre a ideia e a técnica utilizada pra comunicá-la. No fundo tudo se resume a leitura. Ler um vídeo, uma música, por assim dizer, faz todo o sentido uma vez que estamos lidando com linguagens. Lógicas codificadas. Assisto os making offs, live streams, vejo o blog da marca, baixo as soundtracks dos filmes e vou atrás do artbook do cenário. Pelo contexto, sabe.

Tenho uns dois exemplos pra explicar essa ideia. O primeiro envolve a editora Companhia das Letras que após algumas polêmicas (que não vou entrar no mérito agora) decidiu patrocinar o projeto Amores Expressos, idealizado pelo produtor cultural Rodrigo Teixeira: 16 escritores brasileiros foram enviados para 16 cidades em países diferentes ao redor do mundo, onde passaram 30 dias. Eles captaram, cada um a seu modo, algumas impressões e então cada escritor retornou com um enredo para um romance ambientado na cidade em que esteve – os livros estão sendo publicados pela editora (ela pode recusar fazer isso caso não goste do resultado, tá no contrato – tem que render simbolicamente e materialmente, normal).

Paralelo a isso, o projeto incluía alimentar um blog pessoal, onde os autores dividiam com o público o que passavam, pensavam ou simplesmente viam. Ou seja, o autor não estava isolado do mundo, imerso apenas naquela situação. A Companhia das Letras ainda gravou mini documentários depoimentais com os escritores, ou seja, de uma forma ampla, desnudou o processo criativos daquelas pessoas, uma coisa deliciosa que faz o Youtube ainda valer a pena. Destaco três que mais gostei: Lourenço Mutarelli (NY), Antonia Pelegrino (Mumbai) e Joca Reiners Terron (Cairo).

O segundo exemplo também é literário. Em seu blog Michel Laub, se propôs a um desafio dos 100 escritores (que nunca veríamos no Facebook), onde ele pede para eles falarem sobre suas manias. Me senti menos mal por algumas que possuo.

Por fim, um extra: numa entrevista, uma pintora francesa explica porque cria. Isso conclui o post. =]


Why do you create? What is it about being creative that makes it something important for you to do?"I create because I have no other choice, and I am very bad at any other occupation. Creating is part of my personality and if you remove it from me, I may become a ghost."