No segundo dia de festival cheguei muito atrasado. Além da demora
dos amigos, esqueci a identidade da Lee no hotel e deu o maior trabalho
encontrar, com internet podre de celular, um e-mail onde tivesse o documento
digitalizado pra mostrar. Não acredito que muitas outras festas aceitariam esse
artifício.
Eski
Click Box usando o Ableton Live.
No SonarPro, peguei o finzinho da apresentação do cara do Eski, na qual
ele falava das instalações e projetos de aplicação de tecnologia em
espetáculos, principalmente da que rolou em Coachella pro Arcade Fire. Achei
ótimo o conceito de fazer com que o público interaja mesmo com o momento. Depois
entrou o duo brasileiro Click Box pra ilustrar o funcionamento de uma
plataforma pra DJs chamada Ableton Live. Foi quando me toquei que não adiantava
prestar atenção naquilo, não conseguiria entender independentemente da minha boa vontade. Era um espaço pra
profissionais e não é o meu caso, sou totalmente ok em admitir.
Fui encontrar o pessoal no Hall, onde Alva Noto e Ryuichi Sakamoto, um “artista eletrônico virtual” e um pianista estavam batendo um papo
estranho, cada um com sua linguagem. Demorou um tempo pra lidar com a cena.
Sendo franco, é difícil falar do Sonar. Foi uma experiência bastante complexa e
transformá-la em palavras é bem complicado. Pra começar não é meu universo de
conforto, e em segundo lugar eu não estava nem um pouco interessado em cobrir,
ahm, jornalisticamente, apenas em me permitir ao contato com um contexto
distante do meu. E fico feliz em ter conseguido.
No Sonar Club depois de Rustie veio Flying Lotus, um cara de
carisma incrível e de batidas inspiradas. Mas o que me fisgou mesmo foram as
animações que eram ritmadas com o set dele. Animal. Uma passadinha no Mogwai me
fez entender a presença de guitarras no festival: não eram acústicas, mas
distorcidas. Engraçado que em alguns momentos parecia um coral etéreo sustentando
uma nota – ué, mas a voz é fruto de cordas ( só que vocais), me toquei do óbvio.
Quando fui ver Justice, já estava bem doido - o que acho
extremamente coerente. Foi impossível não dançar feito um idiota com aquele set
desconcertante. Eles apelaram: We Are Your Friends é a prova disso. Pular foi
involuntário. Por sorte estava entre pessoas que não ligavam a mínima. Não sou
mais um adolescente, porque né. Meu sapato estourou e quase todos os botões da
jaqueta foram arrancados com atrito da multidão. Um grupinho metido a
interventores tascou umas linhas de tinta azul no meu rosto que me dava um ar
alucinado.
Drama: perco minha mochila com minha câmera dentro. Corro
pra procurar e a moça do staff me leva no Achados&Perdidos – mas não sem um
(real) puxão de orelha. Até ela entender que eu não estava chapado e me
respeitar, demorou um pouco. Brigado, moça.
Monstro.
Squarepusher. Nada havia me preparado pra isso. Nada. Por
alguns momentos eu desisti da humanidade e me transformei num pacote de dados –
não havia muito espaço pra coexistir com as ondas sonoras destruidoras e as
projeções em led ultra impactantes. Lee começou a chorar: não porque estivesse de
alguma forma emocionada, mas porque era muito difícil fechar os olhos. Ele, ao contrário, não
teve uma gota de misericórdia e deixou todo mundo em transe. Foi quando fiquei
com medo de dar um treco naquele teatro. Sei lá, um encanto assustador. Sabe aquele episódio
de Pokemon que uma galera deu uns ataques epiléticos no Japão? Eleve à potência.
Sério.
Ainda meio incrédulo, fui andando devagarzinho pra ver o
Orlando (sim, essas pessoas tem nome) do Totally Enormous Extinct Dinossaurs. Ele é, haha, tipo a versão
masculina (e melhorada) da Claire, do Grimes. Um querido! Foi a maneira mais
animada de terminar a noite.






