segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Little Joy

Sempre quis dar uma arrumada no meu quarto. Colocar algumas frescuras, mas ainda assim permanecer fiel ao clean. Na mesma linha, eu namorava algumas lojas, como a Corrupiola e a Casa Ruim (além de algumas dúzias de lojas no Etsy), que vendem cadernos e outros produtos mais inspirados, artísticos ou, como diria minha irmã, fofos. Mas é aquela história de se importar tanto com o básico que acabo deixando de lado alguns pequenos prazeres.

Semana passada chegou o pedido que fiz na Corrupiola. Um corrupio pra mim, uns bloquinhos e um cartão pra dar de presente, que no meu caso, foi o maior objetivo da compra. Eles mandaram adicionalmente um monte de adesivos, marca páginas e - o que me deixou encabulado - um cartãozinho, no qual tinha um elogio pro meu blog. Sei, sei. Nem fico convencido. Devem fazer isso com todo mundo, mas não estou acostumado e nunca sei reagir. haha

De fato, são bem atenciosos. A descrição deles de "equilibrar o e-commerce com o old style" é perfeitamente justa. Inclusive mandei um e-mail pra eles agradecendo. Em parte porque fiquei satisfeito, em parte porque sou bobo mesmo. Ah, e o preço também é super amigo.

Veio até um calendário de parede =]

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Patch Adams

Passei tempo demais tossindo, então agendei uma consulta. A médica, tentando ao máximo parecer humanizada, me estendeu a mão. Assenti e disse que era muito gentil, mas sugeri que usasse álcool gel em seguida porque o que eu tinha poderia ser grave. Ela levantou meio confusa e foi ao banheiro. Sentou, limpa e aliviada, e me perguntou os sintomas. Bem protocolar. De verdade, acho que deveriam inserir no julgamento de Hipócrates: "Virose não será o único diagnóstico que darás". Por fim, ela me passou um monte de remédios pra fluidificar a tosse e ficamos brincando de dar nomes técnicos para “catarro”. Gostei dos termos. Gostaria ainda mais da cura.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Diversão antropológica: Rehab

A partir de agora a única coisa perigosa que vou fazer na vida vai ser beber Nescau sem agitar antes. Deve ser injusto falar em cansaço aos 21, então vou tentar outros adjetivos. Achei que ficaria mesmo em casa durante o carnaval, nem fiz planos. O que torna tudo mais estranho é sair sábado à tarde e voltar segunda de noitinha, sem avisar. Ao menos não cheguei em casa e me deparei com um post it no espelho do banheiro com dois (severos haha) pontos de exclamação no final de "obrigado pela consideração", como aconteceu com um de nós. Os pais de hoje até tentam pôr medo, mas são bem compreensíveis com a fossa da gente. De loser a afetivamente frustrado todo mundo tem sua contribuição a dar.

A idéia inicial era ir pra algum carnaval de rua, mas eu estava (estou) com uma tosse alérgica muito estranha, talvez terminal. No fim, o cenário de toda uma saga meio Kids/Ken Park (Larry Clark) foi um apartamento bagunçado do qual só usamos dois cômodos: a sala e a cozinha. Só precisávamos de uma posição confortável e um assunto. Nós, que nunca tinha discutido traumas de infância com ninguém, começamos a desbloquear memórias. Regressão é uma coisa muito forte pra acontecer por ai, fora dos consultórios. Lembrei de todos os meus animais de estimação (mais de 10 no total), o nome de todos meus vizinhos e colegas de classe da infância. Parece um bando de fantasmas agora porque nunca mais os vi. E acho que isso vai continuar acontecendo. Deve ser normal.

Depois que você percebe que pode sair de casa assim, abandonando o bom senso, é difícil restabelecer o vínculo com a família. Minha mãe deve ter me ligado duas vezes, pra saber da minha integridade física, mas eu estava no meio de um filme/série velho e absurdo com umas 6h de duração (Angels in America) que me deixou totalmente sem energia. Respondi qualquer coisa que a deixou mais ok como “trouxe meus remédios, a tosse está melhor, ligo depois”. Ao todo eram 3 xaropes e 2 comprimidos, nem sei mais pra que serve cada um.

Em algum momento a gente precisou voltar pra casa. Talvez a necessidade de garantir um lar por mais alguns meses falou mais alto. Cheguei em casa e todo mundo estava dormindo. Carnaval estranho. Segui o exemplo. O filho pródigo, em seu quarto, convalescente sob a luz do fim do dia, a luz mais depressiva que existe.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Resiliência

Estava lá pelo centro, esperando uma reunião folheando minha National, tentando precisar o quanto não sou fotógrafo só por ter uma câmera legal. Num determinado momento não consegui mais me concentrar. Olha, já fui uma pessoa fraca, sou obrigado a admitir. Acho que todo o constrangimento que passei nos últimos fins de semana me rejuvenesceu. Li que companhias ruins podem acabar destruindo você, te dar câncer e fazer infartar. Por sorte, a máxima do “se não mata, fortalece” segue em alta.

Hollywood me devoraria até os ossos. Perguntei pra uma amiga se eu ficaria rico caso transformasse minhas experiências recentes em um roteiro pra uma série junkie e soft porn. Ela disse que sim, mas eu teria que contar toda a verdade. Achei razoável. “Para pais saberem como não criar seus filhos e para os filhos saberem como viver de verdade” - ambivalente, este seria o subtítulo da obra. Daí lembrei daquele cara (Richard) de As Horas, que escreveu uma autobiografia disfarçada de romance e todo mundo achou ruim, piegas e nostalgicamente contaminado. É difícil celebrar a juventude depois que ela acaba, acho.

As molas possuem a elástica e invejável capacidade de, quando submetidas à tensão, voltarem ao normal. Cheguei ao ponto em que não consigo me negar ao confronto. Quero justamente enfrentar, passar por. É possível, percebi. Tinha medo de ser vazio por dentro. Lembro que no cinema assistíamos A Paixão de Cristo, aquele do Gibson. Todo aquele sadismo destemperado e pá, lágrimas desesperadas na platéia. Menos em mim. Pensei que era insensível, mas não, apenas desenvolvi uma tolerância maior ao choque.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Verbalizar

Tô mudado, viu. Antes nem dizia nada, agora sou eu quem puxo assunto com os taxistas. Pergunto, insisto, consigo manter o assunto por um tempão. Triste, mas sigo no drama. Acho importante falar, sabe, pôr em palavras. Admiro quem diz o que pensa, os que explicam, os que contam detalhes. Se a melhor forma de visualizar um projeto arquitetônico é em uma maquete, com idéias é semelhante. Tenho sentido a necessidade de afixá-las, vê-las expostas. São minhas pinturas rupestres 2.0, porque precisamos deixar alguma coisa.
- A única fronteira que sobrou para nós é o mundo dos inatingíveis - ela dizia.- Todo o resto já foi amarrado. Enjaulado dentro de uma quantidade excessiva de leis.
Com inatingíveis ela queria dizer a internet, filmes, música, histórias, arte, boatos, programas de computador, tudo que não é real. Realidades virtuais. Troços de faz de conta. A cultura. O irreal é mais poderoso que o real. Pois nada é tão perfeito quanto você imagina que é. Pois é apenas o inatingível que perdura, ou seja, idéias, conceitos, crenças e fantasias. Rocha se esfarela. Madeira apodrece. Gente.. bom, gente morre. Mas coisas frágeis como pensamentos, sonhos e lendas podem permanecer pra sempre.
Forte. É uma passagem de No Sufoco. Logo no início do livro - e não me importo muito em contar, porque se alguém for realmente ler também não vai – o protagonista, Vitor, fala da mãe, uma ativista política radical, sobre uma vez que ela o levou para uma caverna e o deixou imóvel, iluminado apenas pela luz dos faróis. Então ela usou um pedaço de carvão e desenhou a sombra dele na parede. Rabiscar a parede para registrar o crescimento parece coisa de gente vazia, depois dessa metáfora.

A leitura desse livro, pra mim, foi uma experiência interessante. Não fui o primeiro a ler. Antes disso emprestei para quatro pessoas e pedi que rabiscassem nas páginas o que achassem interessante, de uma forma diferente da outra pessoa. A Nádia, por exemplo, deixou borboletas ao lado das citações favoritas dela. Cada um deixou também uma dedicatória. Quando finalmente fui de página em página, descobrindo a história, foi sensacional sentir a relação dele com seus leitores anteriores. É algo que nunca mais repeti, não seria a mesma coisa. Seria apenas emulação. Pra ser fiel ao espírito do livro, masturbação diletante.

-Talvez você consiga mudar a maneira de pensar das pessoas. A maneira como elas se vêem. A maneira como vêem o mundo. Se fizer isso, você pode mudar a maneira como as pessoas vivem suas vidas. E essa é a única coisa duradoura que você pode criar. Além do mais, chegará um momento em que suas lembranças, histórias e aventuras serão a única coisas que restarão a você. - Minha meta é ser um motor de entusiasmo na vida das pessoas.
De certa forma a minha também, confesso. Olha, na real, quero ser cognitivamente consumido, sem bancar o espertão pretensioso. Não estou falando de liderar opiniões, ditar moda ou de cultivar seguidores, mas de ser lido e interpretado. O resultado disso não depende totalmente de mim porque posso dizer uma coisa e interpretarem outra, normal. Por sorte, Montaigne, em seu blog do além, me alertou para essa vaidade tola do estrelato online. Einstein endossa a crítica. Tolstoy, por sua vez, descobriu a receita e sou bastante grato.