Por um lado, pegar ônibus me
torna uma pessoa mais calma, tolerante. Não consigo ler em ônibus, dói a cabeça.
Não ouço música porque meus fones são do tipo supra auricular e geram uma
comoção estúpida ao redor (e me deixam parecendo 60% indie). Me resta, quando
possível, sentar e acompanhar o embalo
do veículo. O que leva direto às duas ultimas experiências com ônibus errados. Metade
por curiosidade de saber por onde ele ia, metade por preguiça de descer,
esperar outro e tal. Nestas últimas situações, passei cerca de 1h30 percorrendo
bairros que nem sequer sabia que existiam. Consigo contemplar a paisagem urbana
até o momento em que a náusea ataca violenta.
Por outro, pegar ônibus me
emputece feio.
A publicidade tem essa capacidade de chegar aos lugares onde é
menos bem vinda. O mais recente é o interior de ônibus
coletivos. Ficam mini TVs ligadas, no mudo, exibindo incessantemente
propagandas eye-catching e resumos de novelas. O novo sistema indutor de vômito é a vitrine
da depressão de milhares de usuários que às vezes tem de conviver também com o
rádio sintonizado em estações e programas cada vez mais sombrios do rádio como
"A Hora do Rei" no qual, das 12h às 13h, Roberto Carlos toca em loop.
Fico convencido, portanto, do crueldade da empresa de transporte coletivo
municipal porque além de esperar por horas no sol porque os pontos de ônibus
são (rs) deficientes, ainda temos que acompanhar a lotação desafiando o
princípio da impenetrabilidade da matéria – chegando perigosamente perto de
contradizê-lo. É sádico.



