segunda-feira, 4 de março de 2013

Um ônibus, dois sentimentos

Por um lado, pegar ônibus me torna uma pessoa mais calma, tolerante. Não consigo ler em ônibus, dói a cabeça. Não ouço música porque meus fones são do tipo supra auricular e geram uma comoção estúpida ao redor (e me deixam parecendo 60% indie). Me resta, quando possível, sentar e acompanhar  o embalo do veículo. O que leva direto às duas ultimas experiências com ônibus errados. Metade por curiosidade de saber por onde ele ia, metade por preguiça de descer, esperar outro e tal. Nestas últimas situações, passei cerca de 1h30 percorrendo bairros que nem sequer sabia que existiam. Consigo contemplar a paisagem urbana até o momento em que a náusea ataca violenta.

Por outro, pegar ônibus me emputece feio. 

A publicidade tem essa capacidade de chegar aos lugares onde é menos bem vinda. O mais recente é o interior de ônibus coletivos. Ficam mini TVs ligadas, no mudo, exibindo incessantemente propagandas eye-catching e resumos de novelas. O novo sistema indutor de vômito é a vitrine da depressão de milhares de usuários que às vezes tem de conviver também com o rádio sintonizado em estações e programas cada vez mais sombrios do rádio como "A Hora do Rei" no qual, das 12h às 13h, Roberto Carlos toca em loop. Fico convencido, portanto, do crueldade da empresa de transporte coletivo municipal porque além de esperar por horas no sol porque os pontos de ônibus são (rs) deficientes, ainda temos que acompanhar a lotação desafiando o princípio da impenetrabilidade da matéria – chegando perigosamente perto de contradizê-lo. É sádico.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

cosmolover


Teia de afeto


Uma coisa é clara no que diz respeito às companhias que temos: mais importante do que o tempo é a intensidade. Esta última define a profundidade das marcas impressas sobre o primeiro. Tem um sociólogo que fala que ao escolhermos nossos amigos, estamos escolhendo nossos deuses:

Um homem escolhe uma mulher e um bom amigo em atos de auto definição. Aquelas pessoas que ele conhece mais intimamente são aqueles com quem ele tem de contar para sustentar os elementos mais importantes de sua auto-imagem. Portanto, a desintegração dos relacionamentos com essas pessoas equivale a arriscar a perde-se a si mesmo de maneira inapelável.”

Gosto tanto de algumas pessoas e acho que elas nem sabem, provavelmente porque eu sou meio desleixado. Então algumas coisas acabam não sendo ditas, talvez mais do que eu consiga contabilizar. Um dia, espero, vou ser bom o suficiente com as palavras e usar os verbos certos pra explicar que sim, valorizo muito meus amigos – e nossa, no fim das contas nem são tantos  que sim, preciso deles por perto (o que não é uma questão exclusivamente geográfica).

É verdade aquilo que diz a música: deixo e recebo um tanto. Sem perceber, porque certos tipos de sentimentos se acumulam sutilmente, germina essa zona de contato e mais do que isso, de pertença mútua (mas uma do tipo indolor). É de natureza invisível, mas se reconhecer, reciprocamente, no olhar dos amigos torna essa ideia mais concreta. Meio que uma teia feita de afeto.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

four.more.years


Num processo de redimensionamento das expectativas sobre a vida alheia, abri o facebook e resolvi deletar todo mundo que de fato não conhecia, sem medo. Além disso desativei o feed de quase todo o resto, pela razão de não ter condições neurais pra ver tanta coisa que, no fim das contas, nunca precisaria saber. De minha parte, já faz algum tempo que não dou a mínima pra regularidade de postagens aqui. Foi acontecendo e agora é meio irreversível. Considerando a quantidade de informação inútil que a internet oferece não acredito que seja uma grande perda. Em todo caso, é provável que comece outro blog, em um outro momento.

Daqui uns meses mudo de telefone, endereço e carreira. Uns dizem ser um passo atrás, mas a maioria é bem menos dramática (até me felicitam rs): passei pra Ciências Sociais na UFPB, me mudo em abril. É um curso interessante, sobretudo pela possibilidade de escolher, na metade dos 8 períodos, entre Antropologia, Sociologia ou Ciência Política como área de ênfase. Tentei na Unb também, mas o resultado só sai em março e o custo de vida é bem mais alto na capital do país.

Graduação é o novo ensino médio, dizem. Estudei em uma faculdade particular e posso confirmar a parada. Tem muita gente idiota. Dito isso, vez ou outra ainda me pergunto se vou ter fôlego pra mergulhar em outra graduação. Pelo que aconteceu comigo em 2012, ando repetindo por dentro que sim, é a coisa certa a se fazer. Por um lado isso me ata à universidade de um jeito mais definitivo, o que quer dizer que estarei nela pelos próximos 6 anos, se eu tiver feito direito a aritmética desse plano. Em algum ponto isso me deixa inquieto.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Rhye - The Fall


Essa versão apaixonante de The Fall foi colocada no canal do Rhye hoje e o duo deu uma entrevista também. =]

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Escola de dança Lunice

Sod off

Já machuquei pessoas, literalmente. Na sétima série coloquei o pé pra um garoto cair e ele quebrou a mão em alguns lugares. No outro dia ele foi o primeiro a me receber no portão do colégio com o gesso no braço, provando que o lance foi sério: “olha aqui o que você fez”. Acredito que ele tenha recuperado os movimentos e, claro, seguido em frente sem colocar meu nome em uma lista. É um procedimento padrão que envolve a distância e, como consequência, o esquecimento. Então um dia, do nada, uma lembrança pode chegar e não causar mais estrago nenhum. Não move ou demove. Não estou falando de indiferença, mas chega tranquilamente perto do limiar disso.

No fim das contas, a gente supera a morte do cachorro, a mudança de casa, a saída do emprego e o block nas redes sociais. Geralmente. Existe, em algum nível, um prazer estranho ligado à dor da ausência. Mesmo um amor que não dura tem o seu valor. Apesar da situação trágica, todas as lágrimas no travesseiro e os poemas intimistas mimimi (pode até ser um lance bonito, inspirador, forçar um amadurecimento), é mais comum que seja apenas ridículo e, em casos muito tristes, faz nascer a infeliz figura do stalker, o Social Media da obsessão afetiva.

Duas indicações pra tornar a experiência desse post menos individual, mas não menos batida: 1) Lemony Snicket (Daniel Handler) – o  autor de Desventuras em Série – lançou no fim do ano passado o “Why we broke up project”. É, dã, sobre pessoas que por uma razão ou outra terminaram seus relacionamentos, mas a parte menos óbvia e interativa é o tumblr que isso rendeu (mas que cansa depois da terceira página, ficando do naipe fmylife.com). 2) Outra aplicação interessante do conceito é Museum of Broken Relationships, onde objetos saem da fossa à moldura:
Whatever the motivation for donating personal belongings – be it sheer exhibitionism, therapeutic relief, or simple curiosity – people embraced the idea of exhibiting their love legacy as a sort of a ritual, a solemn ceremony.  Our societies oblige us with our marriages, funerals, and even graduation farewells, but deny us any formal recognition of the demise of a relationship, despite its strong emotional effect.
A importância de um chute bem dado é não deixar resquícios e admitir que outra pessoa siga com sua vida, por mais idiota que essa vida seja, é uma lei básica da existência e só não  está na Declaração Universal dos Direitos Humanos por falta de um grupo cyberativista na causa com boas hashtags. 

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Verão da destruição

1) Duas semanas atrás um cara anunciou o fim do mundo e preparou inclusive  um lugar pra esperar a hora certa (12 de outubro, às 16h). Ele juntou uma galera que acreditou na idéia e, tsc =~~ , não rolou que chato. Fizeram matérias no Daily Mail e no The Sun sobre a nossa versão baixo orçamento do Jim Jones.

2) Na semana seguinte, uma pane na rede de abastecimento de água deixa todo mundo sem banho por um ou dois dias, fato que se repetiu menos de 10 dias depois. Relembrando que isso acontece em Teresina que chega fácil aos 35°C no período de outubro à dezembro, tudo com pouquíssima umidade. São testes constantes de resistência. Faz calor e eu adoeço – tenho cá uma skin condition que combina muito pouco com o ambiente, então é uma situação realmente desestabilizante. Why so close Equador?

3) Nesse último fim de semana, pela piada, um apagão nos nove estados do nordeste brasileiro desligou os tão preciosos ventiladores do semi-árido. Além do drama cotidiano, os últimos acontecimentos, como a vitória do PSDB à prefeitura municipal, só me convencem que essa cidade tem uma aptidão natural ao apocalipse.

domingo, 7 de outubro de 2012

Billion years of love

Em 5 de setembro 1977 a Nasa lançou duas sondas gêmeas, as Voyager 1 e 2. A intenção original era estudar a região de Saturno e Júpiter por um período de dois anos. Há muito as sondas superaram em distância e utilidade a proposta inicial e  já dobraram a esquina do sistema solar. Elas se movem a 35 mil milhas por hora e estima-se que tem combustível suficiente pra seguir até 2020. Mês passado, 35º aniversário de lançamento, se encontravam a 16 e 13 bilhões de quilômetros do sol, respectivamente.

 Foto de Ganymede, a maior lua de Júpiter, tirada em 5 de março de 1979 pela VI. 

Afixado em cada sonda, um disco banhado a ouro conhecido por The Golden Record. Eles contem imagens e sons da Terra criptografados em código binário – coisas como cumprimentos em mais de 59 idiomas, fotos de diversos seres vivos, o som de um beijo, as primeiras palavras de uma mãe para um recém nascido e músicas de toda parte do globo. As Voyagers são os objetos criados pelo homem que se encontram mais longe e existe a probabilidade de que sejam a única evidência de nossa existência. Os engenheiros predizem que durarão pelo menos 1 bilhão de anos.


Os discos foram concebidos por Carl Sagan (<3) que inspirou-se em uma ocasião da sua infância, quando visitou a Feira Mundial de NY em 1939 e testemunhou o famoso enterro da cápsula do tempo Westinghouse. Essa é a versão oficial e bem conhecida. Nem tão popular assim, outra perspectiva envolve uma história de amor entre Sagan e Ann Druyan (diretora de criação do projeto Golden Record). Eles se apaixonaram durante o período em que trabalharam juntos, Carl se divorciou e eles passaram o resto da vida juntos.


Uma das ideias de Druyan foi medir os impulsos elétricos do cérebro humano e do sistema nervoso, transformar isso em som e gravar. Alguns dias depois de terem se declarado, ela foi ao Hospital Bellevue em NY e meditou enquanto os sons do seu cérebro e corpo eram captados. Ela disse ter pensado sobre “a maravilha do amor, de estar apaixonada”.

The Voyagers é um curta de Penny Lane feito a partir de montagens com imagens e vídeos de domínio público que conta essa história (que vi no Brain Pickings). Em uma entrevista perguntam pra ela o que ela colocaria caso tivesse a sua própria cápsula no espaço: “todas as cinco temporadas de Fryday Night Lights. E um cubo de Rubik, só pra confundir os aliens”.