terça-feira, 30 de outubro de 2012

Sod off

Já machuquei pessoas, literalmente. Na sétima série coloquei o pé pra um garoto cair e ele quebrou a mão em alguns lugares. No outro dia ele foi o primeiro a me receber no portão do colégio com o gesso no braço, provando que o lance foi sério: “olha aqui o que você fez”. Acredito que ele tenha recuperado os movimentos e, claro, seguido em frente sem colocar meu nome em uma lista. É um procedimento padrão que envolve a distância e, como consequência, o esquecimento. Então um dia, do nada, uma lembrança pode chegar e não causar mais estrago nenhum. Não move ou demove. Não estou falando de indiferença, mas chega tranquilamente perto do limiar disso.

No fim das contas, a gente supera a morte do cachorro, a mudança de casa, a saída do emprego e o block nas redes sociais. Geralmente. Existe, em algum nível, um prazer estranho ligado à dor da ausência. Mesmo um amor que não dura tem o seu valor. Apesar da situação trágica, todas as lágrimas no travesseiro e os poemas intimistas mimimi (pode até ser um lance bonito, inspirador, forçar um amadurecimento), é mais comum que seja apenas ridículo e, em casos muito tristes, faz nascer a infeliz figura do stalker, o Social Media da obsessão afetiva.

Duas indicações pra tornar a experiência desse post menos individual, mas não menos batida: 1) Lemony Snicket (Daniel Handler) – o  autor de Desventuras em Série – lançou no fim do ano passado o “Why we broke up project”. É, dã, sobre pessoas que por uma razão ou outra terminaram seus relacionamentos, mas a parte menos óbvia e interativa é o tumblr que isso rendeu (mas que cansa depois da terceira página, ficando do naipe fmylife.com). 2) Outra aplicação interessante do conceito é Museum of Broken Relationships, onde objetos saem da fossa à moldura:
Whatever the motivation for donating personal belongings – be it sheer exhibitionism, therapeutic relief, or simple curiosity – people embraced the idea of exhibiting their love legacy as a sort of a ritual, a solemn ceremony.  Our societies oblige us with our marriages, funerals, and even graduation farewells, but deny us any formal recognition of the demise of a relationship, despite its strong emotional effect.
A importância de um chute bem dado é não deixar resquícios e admitir que outra pessoa siga com sua vida, por mais idiota que essa vida seja, é uma lei básica da existência e só não  está na Declaração Universal dos Direitos Humanos por falta de um grupo cyberativista na causa com boas hashtags. 

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