terça-feira, 27 de março de 2012

Rituais de passagem

Quando passei no vestibular, não raspei a cabeça e agora que estou me formando não vou fazer festa alguma. Motivos pra celebrar existem, mas tesão pra baile de formatura, missa, aula da saudade, isso não. A família se chateia porque quer que a gente divida os louros. Razoável. Nada contra quem curte, entendo a carga simbólica. Só tentei dizer que existe uma lógica na decisão.

Teve esse senhor, uns 70 anos, passou no vestibular agora, me chamou de prodígio por concluir a graduação aos 20. Caçoei. Falei que ele não conhecia o Ben Kling, que faz tudo que eu queria fazer na internet: escreve, ilustra, canta, cria sites e tem muito senso de humor. Ele tem 20 anos e o currículo dele tá disponível [aqui], pra reforçar o sambinha na minha cara. Não conhece outros contemporâneos, como Alex Rawlings, 20, que fala 11 línguas, e provavelmente beija bem. Não faz nem ideia de quem seja o Francisco Stelzer, paulista de 9 anos, que recentemente transformou uma dessas estorinhas que toda criança inventa em um livro ilustrado.

Hilda Hilst publicou seu primeiro livro de poesia, Presságios, aos 20. Augusto Boal, também aos 20 já fazia PhD em Engenharia Química, em NY, enquanto estudava dramaturgia. Guimarães Rosa passou pra Medicina com 16. A lista é enorme, mas já deu pra sacar. São alguns parâmetros comparativos - não pra diminuir o valor, mas pra ilustrar a total ausência de crédito em simplesmente ser jovem hoje em dia.


A forma que sentimos as coisas muda, isso é ok. Elas passam a ter um peso diferente, isso quando ainda possuem algum. Esse sentimento fica particularmente mais aparente na crise dos 20. As pessoas às vezes sentem falta da maneira que costumavam sentir. É talvez o que faça da infância uma época mágica e da crise de meia idade um período tão trágico.

Dia desses minha irmã assistia aquele programa de culinária com a Nigella Lawson. No fim da receita, ela serviu a refeição pro casal de filhos, emendando logo aquele papinho de mãe: “foi bem na escola? tem muita lição?”, etc. O filho diz que tem um trabalho chato sobre artrópodes, mas que não sabe nem o que isso quer dizer. Ela ri e responde com “engraçado, eu costumava saber”. Não comentei que fiquei pensativo na hora pra não cair no conceito.

domingo, 18 de março de 2012

Foto do perfil

Se na Renascença os nobres contratavam os pintores para retratá-los, esperavam uma boa perspectiva - queriam ser enaltecidos, imortalizados em beleza, atitude e em algum nível de sex appeal. Por isso, às vezes, exageravam no traço, esfumaçavam aqui e ali ou omitiam uma ruga. Eram os assessores de imprensa das belas artes. O marketing pessoal em óleo sobre tela. A foto de perfil está no meio desta vontade de deixar visível não apenas uma reprodução fiel, mas uma representação de aspectos que a pessoa mais admira em si mesma.

O desafio do fotógrafo de perfis (seja nas redes sociais, no msn ou, haha, no curriculum vitae), caso existisse, seria reconhecer a vaidade mesmo dos que são modestos demais pra expressar. Acho engraçado como o efeito de desfocar o fundo (fruto de um simples ajuste de foco) encanta tanto. O ar profissional de destacar o primeiro plano convence os mais impressionáveis. Esta seria a primeira exigência feita aos fotógrafos de perfis - assim como ter um profile em mais de três redes dá o direito adquirido a qualquer bípede de intitular-se "analista de redes sociais".

Ainda assim, o retrato é meu tipo favorito de fotografia. Nada contra paisagens, objetos inanimados, formas e texturas como sujeito da foto, mas o retrato me instiga mais. Particularmente, não vejo os “defeitos” faciais como um problema - são uma partitura em olheiras, sinais, marcas de expressão e assimetria. As proporções áureas desmanteladas.

Variação do mesmo tema, o auto-retrato é o que move um cara chamado Jeff Harris, que tira uma foto por dia ha um bom tempo. Sei, tem muitos projetos parecidos, mas ele procura tirar uma foto por dia de alguma coisa relevante, e não apenas o próprio rosto, pra demonstrar a ação do tempo. Dá pra entender melhor acessando o site dele e vendo isto:

sexta-feira, 9 de março de 2012

Não falo com rosas

Minha mãe fala com rosas. Antes mais, agora nem tão freqüentemente. Bem cedo, pela manhã, regava as plantas, um hábito difícil de conciliar hoje em dia. Ela acompanhava com expectativa o desabrochar de cada novo botão. E quando acontecia, às vezes ficava histérica e me gritava do jardim: “Téo, olha que linda!”. Às vezes baixinho, em segredo, ela conversava um pouco mais solene, como se fossem amigas. Vou dizer que se não fosse por ela, não teríamos plantas em casa.

Ano passado, ganhei de aniversário um cacto albino. A Isadora quem me deu, disse que dão pouco trabalho - mas me enviou junto uma carta de instruções, só por precaução. Então, a cada 7 dias faço furos na terra do vasinho de plástico e abro a torneira por alguns segundos. Não conversamos e questiono se ele tem bom humor. Ele não parece se importar. Fica lá na minha janela com seus espinhos que não furam ninguém.

Mesmo achando fotos de flores meio óbvias, para aplacar um pouco essa minha inaptidão, acessei hoje o blog da Lucy, que mora no norte da Inglaterra “em uma casa vitoriana com mais de 100 anos” e posta fotos de seus arranjos e outras coisas do seu lifestyle florido.




sábado, 3 de março de 2012

Estamos em obras, aceitem os transtornos

Há alguns meses a Agespisa, órgão municipal responsável pelo tratamento e manutenção do sistema de esgotos e abastecimento de água começou um trabalho de reestruturação e ampliação da rede tubular em alguns bairros da cidade. Os homens vieram, abriram buracos imensos nas ruas, atrapalharam o transito, o passeio público e o tráfego. E como se fosse sábado, feriado ou ponto facultativo, nunca mais voltaram. Na minha rua especificamente, graças ao órgão, foi criado um novo ponto turístico, o Meteoro da Paixão. Retirada do centro da Terra, a rocha tem mais 3m de comprimento promete ser a rota turística mais romântica do ano. Pesa toneladas, mas em breve estarão disponíveis miniaturas colecionáveis e muitas fotos com filtros vintages no Instagram.

Um casal apaixonado se prepara para pose no Meteoro da Paixão - Teresina. Usarão esse mesmo filtro sépia.

Já este indivíduo, claramente solteiro, aposta na visibilidade do ponto turístico para desencalhar.

Em capitais, e é bem razoável, existem todo tipo de problema urbano e espera-se que a gestão responsável saiba conduzir os recursos para solucioná-los, afinal, dã, elegeram pessoas pra isso. É o princípio mais básico da democracia indireta. Em Porto Alegre, o coletivo Shoot The Shit, entretanto, prefere um caminho mais colaborativo e aposta em boas ideias para contribuir com a cidade. Destaco duas bem provocantes, o “Paraíso do golfe”, no qual fizeram um vídeo demonstrando todo o potencial local para o esporte (só que ao contrário) utilizando os buracos nas ruas, e o #PoaPrecisa – intervenção que instigava as pessoas a completarem a frase “PoA precisa de mais...” em painéis de tapume.


Em outra linha de atuação, em Curitiba, o projeto Raio X Curitiba, de autoria do ex-prefeito (e atual pré candidato, mas não vou entrar no mérito) Gustavo Fruet faz algo interessante. Lançado este ano, disponibiliza um mapa da cidade no qual os usuários marcam e registram reclamações sobre infraestrutura, educação, saúde, etc – desde falta de energia à denúncias de pontos de drogas e relatos de assaltos. É como marcar um ponto no Google Maps e inserir informações. Em um mês de funcionamento o site recebeu 750 participações.

Pra finalizar a vibe cidadania desse post, o site Queremos Saber. Nele as pessoas pedem informações públicas aos órgãos responsáveis. A ideia é forçar uma resposta, baseado na premissa de que silêncio pega mal. Parece ter dado certo na Inglaterra, até porque se trata uma iniciativa inspirada em uma realização britânica de mesmo objetivo, o What do They Know. Funciona como um Reclame Aqui numa versão Wikileaks. Pra entender mais tem essa matéria no Estadão.

Aproveitando a deixa, penso em perguntar: “Elmano Ferrer, seu lindo, você gosta de Luan Santana?”.

Update: Destruíram o Meteoro! Cheguei em casa do trabalho e estavam dilapidando o monumento e, o que é mais intrigante, queimando-o - como se fosse uma mera pedra de crack! Um crime patrimonial. Perguntei porque eles estavam queimando o bagulho, "por que tanto ódio?". Me disseram que facilitava na hora de quebrar. Sobrou apenas uma marca negra no chão. Marcas do Raio da Saudade.

Ressignificando o portfólio

Hoje fui pela primeira vez a trabalho em um lugar pelo qual tenho um certo carinho. Chegar no tão familiar Centro de Artesanato tendo como motivo razões profissionais me encabula. Todo o centro da cidade tem um sentido muito forte pra mim porque muitas experiências de vida estão ligadas àquelas ruas e prédios.

Durante o ensino médio, era muito frequente ir com a Naelle, o Renan ou o Pedro Piel conversar no corredor Escola de Música, que fica no primeiro andar. Depois passei uns 8 meses nas aulas de violino, naquele mesmo lugar (já contei um pouco desse desastre musical). As estátuas de celebridades históricas, com as quais todo mundo faz tietagem, eram só nossos colegas de cenário.

Repetimos esta cena algumas milhares de vezes nas escadas da Escola de Música.

Por falar em ensino médio, a última vez que estive nas instalações do CEFET (atual IFPI) foi por conta de uma entrevista com o reitor de lá pra compor uma matéria pra um cliente. Logicamente, ele não me reconheceu. Enquanto esperava o horário marcado, passeei pelos corredores e salas, corroído pela nostalgia.

Outro lugar que ia constantemente pra ver o pôr do sol era a cobertura do Metropolitan. O pessoal não barrava a gente quando dizíamos que era pra fotografar a vista. Acho que massageava o ego deles. De fato, só fiz isso uma ou duas vezes, porque ia só pra conversar num lugar ventilado, quem conhece Teresina sabe o porquê. Daí que ano passado fiz alguns freelas que envolviam o hotel - o mais etílico aqui.

Creio que o importante, nesta altura da vida assalariada, é não deixar contaminar as memórias. Sei lá, tem a ver com preservar e ser fiel ao seu passado, embora muito do que acredito daquele tempo são da minha nova forma de lembrar.