terça-feira, 19 de junho de 2012

Haircut

Lee veio dormir aqui em casa. A gente acordou meio dia, almoçou, dormiu de novo e quando levantamos no fim da tarde, ela pediu pra cortar meu cabelo. Deixei porque não me importo mais e também seria divertido - ou seja, não rolou rebeldia, deprê nem coisa nenhuma. Pegamos tesouras grandes, fomos para um espaço aberto e começamos o trabalho.  Os primeiros tufos no chão foram os mais dramáticos.

Quando não deu mais pra cortar com tesoura, peguei o creme de barbear e o barbeador. Foi, talvez, a parte mais complicada porque só tínhamos um barbeador de três lâminas. Todas elas estão cegas agora. Nunca tinha raspado a cabeça (mas já cheguei bem próximo), nem mesmo na época do vestibular. É uma bobagem, mas não sou muito bom com rituais. Em todo caso, cabelo é só um acessório: prefiro muito mais um estômago bem regulado.

Hoje de manhã quando minha mãe bateu na porta do quarto para pedir alguma coisa, não chegou nem a terminar a frase: “...O QUE FOI QUE TU FEZ?!”. Nada, só raspei a cabeça, disse ainda dormindo. Ela ficou por um tempo disparando perguntas atônitas. Saiu de casa meio chocada, o que é relativamente normal quando pais se dão conta que perderam o controle de algumas coisas básicas.

Firestarter

 Mamimi Samejima, uma incendiária.

A tocha olímpica já começou sua viagem. Acesa na Grécia, hoje deve estar em algum lugar da Grã Bretanha. É uma teatralização do mito de Prometeu (o cara que roubou o fogo de Zeus para entregar aos mortais). Os gregos tem um pitaco pra dar sobre tudo que existe, afinal.

A ideia do fogo enquanto um agente purificador é antiga. As vítimas da inquisição eram higienizadas espiritualmente com chamas, embora não conseguissem sobreviver para atestar o processo; na agricultura primitiva, as queimadas controladas serviam pra limpar o terreno e, por definição, ‘limpeza’ significa livrar da sujeira, clarear, pureza, enfim. Vem do latim “limpidus”.  

A história da razão também tomou de empréstimo essa analogia luminosa – por exemplo, o conhecimento para os Iluministas era jogar luz no mundo. Além do que, somos animais diurnos, o que levou a maioria das civilizações a adotarem o sol (essa bola de fogo imensa e brilhante) como um referencial positivo, às vezes sagrado. E bem, o domínio do fogo teve um papel decisivo para a evolução. Portanto, o fogo - essa reação tanto química quanto física – é foda.

Queimar alguma coisa é livrar-se dela de forma definitiva. Mais forte do que rasgar ou abandonar na estrada ou simplesmente deixar pra trás. Mais do que simplesmente destruir, pode ser um indicativo de renovação. H. D. Thoreau conta uma ou duas coisas interessantes que envolvem essa interpretação, segue o quote:

Quem sabe poderíamos, com proveito, imitar os costumes de algumas nações selvagens, que uma vez por ano procedem como se abandonassem sua pele velha? Elas têm a intuição da coisa, quer tenham ou não a realidade. Não seria tão bom se celebrássemos um busk ou "festa dos primeiros frutos", tal qual faziam os índios Mucclasse, na descrição de Bartram? "Quando um povoado celebra o busk," diz ele, "tendo de antemão se abastecido de roupas, vasilhas e panelas novas, além de outros móveis e utensílios domésticos, juntam todas as roupas usadas e demais objetos desprezíveis, varrem e limpam as casas, a praça e a cidade inteira, jogando o lixo, os grãos que sobraram e outras provisões velhas num monte comum em que tocam fogo. Depois de tomarem remédios e jejuarem três dias, o fogo é totalmente apagado. Nesse período de jejum, a população se abstém de satisfazer qualquer tipo de apetite ou paixão. Proclama-se uma anistia geral e os malfeitores podem retornar ao povoado.

“Na quarta manhã, o sumo sacerdote, esfregando lascas de madeira seca na praça pública, produz um fogo novo, do qual chamas novas e puras são distribuídas por todas as habitações." Então eles festejam comendo milho verde e frutos, dançando e cantando durante três dias "e nos quatro dias seguintes recebem visitas e se confraternizam com os amigos das aldeias próximas, que por sua vez já se purificaram e prepararam de modo parecido".

Os mexicanos também praticavam uma purificação semelhante ao fim de cada cinqüenta e dois anos, na crença de que já era tempo de o mundo acabar.

Raramente ouvi falar de um sacramento mais verdadeiro do que esse, isto é, "sinal visível exterior de uma graça espiritual interior", segundo a definição do dicionário, e não ponho em dúvida que na origem foram diretamente inspirados dos céus para agir assim, conquanto não haja texto bíblico para a revelação.

Baita desapego. Sendo extremo, acho tranquilo quem topa ser cremado, se tornar cinzas, etc. Nessa perspectiva, o calor das paixões e da presença não é tão incrível se comparado ao calor das ausências. 

domingo, 17 de junho de 2012

But i'm doing it anyways


Isso é só uma consideração, uma nota de rodapé. Um post-it no canto da página. Não é tão simples explicar a ideia toda (admitindo que aqui eu tenha a quem explicar alguma coisa). O headline superficial seria algo como: resolvi tirar férias de tudo e levar uma vida sabática por uns meses. Mas de fato, é uma imersão sinistra e vai tomar algumas dúzias de posts. Provavelmente nem consiga falar a respeito porque, francamente, é muita informação e dai vou ficar parecendo meio maluco sem saber filtrar - isso se a gente considerar que a base para falar sobre nossas experiências incríveis é não fazer isso de um jeito muito idiota. Não que eu consiga, mas é o que continuo fazendo.