sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Barulho afinado

Me enrolo bastante com viagens românticas porque elas acabam se transformando em uma bad trip rumo à fossa. A sorte é que tenho exercitado uma muito bem vinda praticidade afetiva. Nem sei, não estou tão on fire, mas confesso que a expectativa por Justice e Björk trazem ondas imensas de animação. Explico fácil:

Pra quem acha que drogas acabam com o cidadão, tá aí o Biophilia mostrando que é possível vencer na vida depois da cocaína. Thom Yorke, em Lotus Flower, certeza virado de doce, faz justiça a todos os fritos do planeta. Nem implico. Bato palmas e canto junto.

Com tranqüilidade, de toda a aventura musical da Björk, prefiro de longe o Homogenic. Assim como prefiro o The Bends do Radiohead, bem simples e bem honesto. Essa galera foi ficando cada vez mais experimental e acho até ok porque tem horas que a gente pira, né.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Verão da exceção

Costumo achar chuvas românticas, embora aqui sejam sinistras, alaguem tudo e quebrem os guarda-chuvas da gente. Historicamente, considero janeiro e fevereiro meses de romance. O clima pede companhia. Dormir de conchinha é como se escreve “mimimi” no kama sutra. A preguiça de manhã, o bom humor repentino, o estranhamento combinado com o deleite de simplesmente não estar suando em pleno meio dia. Estar solteiro, nessas condições é uma coisa nova. Faz frio, não estou de mãos dadas. Acho ok porque tenho um coração livre, e ele de tão leve levita. Molhado, no caminho pra casa observei um céu que nublou alaranjado, dei um sorriso besta e quando cheguei tirei uma foto. É um período de exceção.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Anfitrião

Recebi um hóspede, um amigo de uma amiga que passou no vestibular aqui. Nunca havia acontecido, então minha prática é nula. Preparei o quarto desobedecendo todas as orientações do feng shui, mas o importante é manter a calma e tentar acolher bem as visitas. Até pedi folga do trabalho pra poder dar assistência maior.

Minha mãe, num lapso de prestatividade, vem me ajudando. No desembarque do aeroporto, dei a referência: "ele está com a cabeça raspada". Ela me apontava carecas, calvos ou pessoas que tinham entradas. Chamei ela de canto e pedi pra deixar as pessoas em paz. Já em casa, mais tranquila ela observou que ele usa um escapulário e suspirou aliviada "é católico".

Hoje a noite, aceitamos o convite de um casal de amigos e fomos comer tacos num estabelecimento protegido por Cristo. Mais poderoso do que qualquer alerta "cuidado com o cão, pastor alemão" é a Armadura de Deus estampada na entrada.








terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Catraca Livre

O jornal 'O Dia' de hoje publicou o artigo "Vergonha de exercer a cidadania", escrito pela professora Eulália Vasconcelos. Ela foi minha inspiradora professora de Teorias da Comunicação e Teorias do Jornalismo e atualmente faz mestrado na Universidade de Nagoya, Japão. Achei lúcido e pertinente:


No fim da tarde, como vem acontecendo há alguns dias, as empresas retiraram as frotas de circulação. Alegam temer danos ao patrimônio. Incoerente mesmo é que apesar disso, defendem com unhas e dentes o direito de ir e vir. Paradas lotadas, pessoas cansadas e iradas que só precisam chegar em casa, precisam jantar e tomar um bom banho, precisam de suas famílias. O artifício é fazer com que os usuários de ônibus sintam um misto de raiva e nojo dos manifestantes pelo transtorno que vem causando - embora eles também sejam penalizados diariamente, uma vez que o valor das passagens se prova abusivo.

Pois bem, que grata surpresa: os protestos tomaram um rumo no mínimo autêntico. Forçaram os motoristas a abrirem as portas traseira dos veículos, por onde todos entraram de graça e uma vez lotados a via era desobstruída e seguiam viagem. Sem vandalismo ou anarquia, sem discursos ou bandeiras. Apenas uma bomba explodiu hoje: uma bomba atômica de aplausos. Mais uma aula de pressão política e o preço da passagem baixou, por algumas doces horas, para zero. Sempre achei que de graça mais gostoso.


É professora, acho que estamos perdendo a vergonha. Estamos aprendendo.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Lições de bolso

Um professor do ginásio sabia macetes incontestáveis para horas de aperto. Pensando agora, talvez subconscientemente ele tenha me feito nunca considerar as licenciaturas como opção profissional. Entre seus bizus estão a junção de pedaços de sabonetes para formar um "seminovo", o uso pets de coca cola (2L) como jarras d'água e o corte de pastas de dente para aproveitamento total. Não esqueço o dia em que ele contou levar sachês de ketchup dos estabelecimentos para completar o pote da geladeira. Um guia de sobrevivência, em suma. Um herói. Honrei sua memória e hoje dei um destino inteligente para minhas bermudas velhas e apertadas.

Acredito que a sustentabilidade é um desafio crescente no processo de criação de utensílios (sejam eles úteis ou decorativos). O reaproveitamento é uma alternativa interessante e significa, neste contemporâneo estilo de vidaecofriendly, não apenas reaproveitar tampinhas de garrafa pra fazer uma cortina, usar jornais velhos e transformar em cesta ou votar na Marina Silva, mas é uma preocupação também de design e, consequentemente passível de muita frescura. Se esta reciclagem engenhosa antes acontecia por pura e simples necessidade, hoje é bem provável que seja uma questão de tendência artística, como ilustra o projeto Contenedor, do Cuarto Derecha, site espanhol sobre idéias e conceitos criativos.


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Condoído

Hoje era pra ser um dia de alegria. Minha irmã estava linda, entrando na igreja de braços dados com minha mãe na missa de formatura (Engenharia Civil). Eu estava feliz, muito feliz. Então, recebo uma ligação. Naquele momento, ouço: 600 policiais trucidaram – e não há outro termo para absurda violência – manifestantes do #contraoaumento que ocupavam a Frei Serafim. Entrei na internet por celular e vi cenas de guerra civil. Uma pessoa, atingida por bala de borracha, perdeu a visão de um olho. Em termos de repressão, não perdemos em nada para nenhum grande protesto do mundo. Um exemplo de crueldade. No meio da festa, em choque, me escondi pra chorar.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Verão da Ocupação

Quando o relógio marcou 18h, o pessoal da agência se preparou pra ir pra casa. Acertamos quem ia com quem, naquela carona amiga. O céu ameaçava uma dessas chuvas estranhas e apocalípticas que chovem por aqui, do nada. Desde a semana passada, os ônibus não circulam no horário ou simplesmente não circulam. Com a turma, peguei a rota até um ponto, medianamente distante da minha casa. Segui a pé porque não estava exausto, nem de mal humor. Passei na padaria, comprei um bolo e ensaiava como pedir para minha tia, que vai passar esses dois dias aqui em casa, pra fazer café. Ouvindo Diorama, pra mim o melhor e irretocável álbum do Silverchair, fiquei divagando com meus botões o quanto admiro aqueles que estavam, naquele momento, e mesmo antes disso, nas duras manifestações contra o aumento da passagem dos coletivos.

Moro, estudo e trabalho aqui. Sou empático e me identifico com o que aqui acontece. De manhã, ligo a TV enquanto me arrumo. Pra chegar no trabalho, pego duas conduções, então saio cedo. Quando chego, uns 40 minutos depois, leio os jornais, marco as matérias de interesse para os clientes de assessoria. Vou pra minha mesa, vejo os portais e alguns blogs. Faz algum tempo, as manchetes são parecidas. Falam, com alguns adjetivos mais ou menos sutis, de estudantes nas ruas. Alguns deles são meus amigos, por isso me preocupo e faço questão de acompanhar nos jornais, na televisão e principalmente nas redes sociais, no calor do front, onde ocasionalmente entram em conflito com policiais armados.

Teresina, neste janeiro, pela segunda vez vive um movimento denominado por seus participantes de #Contraoaumento. Em outubro do ano passado, o aumento anual na tarifa de transporte coletivo foi anunciado, gerando indignação não só de estudantes, como apontam erroneamente, mas de toda população. Um aumento deveras injusto visto que os trechos não são extensos (em sua maioria), não tínhamos uma frota conveniente à demanda, ônibus bem estruturados, muito menos integração. No primeiro dia, menos de 100 pessoas se uniram à manifestação e em resposta levaram muitos hematomas e spray de pimenta nos olhos de nossa polícia despreparada, truculenta e autoritária. No quinto dia, surpresa, aqueles 100 tornaram-se milhares – fala-se em mais de 20 mil. Organizados, deram uma aula de pressão pública. O decreto que aumentava o valor da tarifa foi revogado. O Fórum Estadual em Defesa do Transporte Público de Teresina encheu os pulmões de ânimo. O movimento foi vitorioso, ao contrário de tantas outros que tentaram barrar o mesmo abuso e, infelizmente, não o foram. Comemorei, todos comemoramos, nos sentimos orgulhosos. Na época escrevi uma nota de apoio aos que conseguiram - nem quero dar lições, sabe, deixo essa parte para os mais audaciosos. Ela permanece atual:

Na lama, sujam-se todos

A Cidade não é uma obra de arte, intocável, imaculada. Não é só paisagem, onde a vida segue sem sobressaltos. Ela deve ser praticada e isso quer dizer que ela é capaz de transparecer em seus relevos aquilo que seus habitantes são e sentem. Pichação, depredação, fogo - antes de serem imediatamente consideradas vandalismo, traduzem também a revolta de pessoas tratadas feito gado, obedecendo a regras que não as favorecem (o caminho do abate). O exercício do poder é um constante desequilíbrio e são em momentos como esse, pelo qual Teresina passa que enxergamos quem são seus atores e de que forma a balança funciona - em um enorme paradoxo. Em todo o caso, entre ânimo e frustração, entre crença e cinismo, escolho estar entre os que lutam, os que amam e mudam as coisas.


De lá pra cá, a diferença real é uma faixa azul e um protótipo de integração entre as linhas. O fracasso, em caps lock neon, de um planejamento técnico equivocado. Não justificado o aumento, de novo nas ruas, as manifestações se repetem e, mais uma vez, as apóio, acho importante frisar. Não pude/posso participar ativamente por causa da jornada de trabalho. Os transtornos, relevo, aceito o incômodo como quem toma uma vacina – é necessário. Uso ônibus não por diversão, nem por antropologia. É uma necessidade real, vital talvez. E meus medos são assim traduzidos:

“Na medida em que o mercado não reconhece direitos, a função central que ele vai assumindo na reformulação das relações econômicas e sociais representa uma transformação do que era direito em um bem negociável no mercado. Assim, de direitos universais os direitos à educação e à saúde passaram a ser mercadorias, e, concomitantemente, o Estado deixou de desempenhar seu papel na afirmação de direitos, para, ao contrário, centralizando-se em políticas de desregulamentação, abrir espaços para a mercantilização crescente de políticas sociais.” – Laboratório de Políticas Públicas da UERJ

Mas meus sentimentos não cabem em etiquetas.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Ou vocês achavam que eu tinha um Ipad?


Ter uma agenda em 2012 pode parecer tão ultrapassado como usar Windows 95. Discordo. A primeira razão é a herança de hábitos. Minha mãe, embora não consiga entender muito a letra dela, escreve todos os dias, desde quando consigo lembrar. São anotações do trabalho, na grande maioria, uns números de canto e algumas coisas religiosas, porque ela é cristã, temente e zelosa. Algumas vezes eu folheava curiosamente cada página, tendo o cuidado de olhar a data do meu aniversário antes do resto.

Já tentei outras coisas, sabe. Os widgets na tela inicial falharam em me lembrar afazeres importantes, os lembretes de tarefa do Gmail idem. Quando confiei no celular, ele não soou o alarme na hora certa e dei de cara com um maldito deadline. Fiquei chateado com os aplicativos de uma forma geral. É algo que preciso melhorar, essa pose geek. Só que não. Anyway, a agenda funciona como um apoio quando os outros componentes da missão "organização" fracassa.

Todo mundo tem aquela agenda descartada numa gaveta com algumas datas preenchidas, mostrando que sim, houveram tentativas. Infelizmente, acabamos por desistir e passamos a ser assombrados pelo improviso.

O que leva ao segundo motivo de insistir com a agendinha. No meu primeiro emprego, comprei uma. Era ótimo, me dava um ar engajado. Parei de usar quando meu chefe passou a descumprir os prazos seguidamente. Agora, penso, é diferente. Preciso de uma rotina pra cumprir, uma necessidade interna a preencher. Fui nessa papelaria, olhei a vitrine um pouco e sem pensar muito escolhi a mais clean das agendas, pra não me chamarem de recepcionista - sem ofensas. Comprei post-its também, por simples tara de deixar recadinhos por aí. Contagiado pela vibe volta às aulas por pouco comprei giz de cera e caderno de desenho.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Um cantinho e um violão



Em 2008 descobri o Blogoteque, site francês que fala sobretudo de música, principalmente da independente. Além de críticas e entrevistas eles fazem vídeos com as bandas. São os Concerts à Emporter/Take Away Shows.

Esses vídeos deixam claro o que quase ninguém quer ver - por trás da superprodução e da HD existem pessoas que acordam com bafo e desarrumadas, e algumas são meio malucas por optaram pelo sofrimento de ganhar dinheiro com música, que dão realmente duro e quiçá dão certo. Minto, é só uma proposta menos formal de clipes.

É tudo gravado com um clima bem íntimo e descontraído, beirando o improviso de um ensaio. E é assim que gosto de conhecer uma banda: sem efeitos especiais/sonoros, mil instrumentos de apoio, campanha publicitária, sem julgar pela capa de cd, enfim.

Das dezenas de bandas que já gravaram com eles, cito as mais conhecidas: Beirut (que fez um DVD inteiro com take away shows), Arcade Fire, Bloc Party, Vampire Weekend, Lykke Li. O legal mesmo é ver em ação uma pancada de músicos que nunca saberíamos da existência se dependêssemos do mainstream.

Confissões extraordinárias de vidas comuns

Pra quem você conta seus segredos: sua mãe, seus amigos? E que tal pra estranhos? Parece impraticável, mas é justamente isso que faz a idéia do Post Secret tão instigante. É um projeto artístico de Frank Warren que, como pouca coisa na internet, consegue ser global e interessante. Afinal , quem não esconde alguma coisa? São milhares de cartões postais anônimos e handmade com todo tipo de confidência.

Criado em novembro de 2004, o site já ganhou versões em outros idiomas (alemão, espanhol, francês, por exemplo). Religiosamente atualizado aos domingos, os segredos vêm à tona em toda parte. Podem ser leves, pesados, engraçados e alguns, naturalmente, inconfessáveis. Cinco livros já foram lançados, é fácil encontrar na Amazon.

Uma dica é visitar o site em datas comemorativas porque geram bastante entusiasmo - dia das mães/pais, 11 de setembro, ano novo, etc. Conheci o site em fevereiro de 2007, época em que boa parte do mundo estava no clima do dia dos namorados (no Brasil, em junho).

Lógico, aproveito o pretexto pra revelar que costumo sentir um grande alívio quando vejo que pessoas de outros lugares mundo possuem segredos parecidos com os meus. Divido o crédito do drama.