terça-feira, 18 de outubro de 2011

Aquecer

O Jone é um primo formador de personalidade que tenho por parte de mãe. A gente tem a mesma idade e passamos juntos bons momentos na infância, no interior do Maranhão. Nossa rotina se resumia a andar de bicicleta e tomar um sabor diferente de sorvete por dia (muitas vezes a diferença ficava a cargo apenas da cor). Recentemente, tivemos um reencontro após oito anos. Ele cresceu o dobro do meu tamanho e já estava casado. Falei disso na época, neste post.

Hoje, alguns meses depois, ainda mantemos o contato, com alguma regularidade. Ele se separou da esposa adolescente e agora mora no sul, levando uma vida tensa e braçal. Essa noite o Jone me ligou, disse que era a noite mais fria que ele enfrentava até então. Sozinho, num apartamento mal dividido, a sensação era estar no Alaska, num cenário branco e gelado em todas as direções. Eu contei que sai dos empregos porque, no momento, me formar era mais importante; disse pra ele vir no ano novo e que aqui é onde, como ele bem sabe, o termômetro sempre está acima dos 30. Rimos juntos de alguma lembrança, nos desejamos sorte e então desligamos meio sem jeito - um silêncio onde caberia um milhão de abraços.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Rio de Janeiro taggeado II

Especialmente aos sábados, debaixo do viaduto que passa em frente da Estação das Barcas, na Praça XV, rola uma feirinha de antiguidades. São centenas de barraquinhas com os mais variados, intrigantes e antigos itens. Em Teresina tem algo parecido, o Troca-troca, mas aqui a ênfase é na utilidade (e na procedência duvidosa) e lá o conceito é mais elástico, abrangendo colecionáveis e uma veia mais design, exalando kitsch. Coloquei em miniaturas pra não bagunçar muito o post.

domingo, 9 de outubro de 2011

Núvem Negra

Em suas comédias, Oscar Wilde desenha a sociedade burguesa européia de sua época com pinceladas de cinismo, prepotencia e hiprocisia. Um bando de gente insuportável, resumindo. O tempo não foi suficiente, entretanto, para me negar a convivência com uma réplica tupiniquim daquele antro.

Eu tenho aqui o costume de usar outros adjetivos, adaptados para meu contexto de pessoas irritantes: gratuitas, avulsas e aleatórias. Cada uma dessas palavras está presente em meu dia-a-dia para poupar um léxico considerável de palavrões. Felizmente, apenas uma pessoa conseguiu receber esse título tríplice: a Mother Monster.

Meu objetivo, bom abrir o parêntese, não é paz de espírito, então meu coração se permite, quando dá tempo, a ficar preenchido até a metade de uma mistura venenosa de raiva e nojo.

A Mother Monster era uma pessoa bastante difícil. Em boa parte das situações os motivos para suas decisões eram absolutamente irrelevantes, o que não a impedia de tomar atitudes super enérgicas e aditivadas com zombaria. O transtorno de multipolaridade batia forte, out of the blue, e Mother Monster estava lá, assustando as crianças no parquinho. Coisa sinistra.

Eu acredito que ela costumava ficar no espelho, repetindo pra si mesma que era a melhor e mais capaz pessoa que passou pela Terra até então - e, né, só aceitava ser tratada como tal. Imagino como devia ser difícil, aguentar o fardo de ser tão superior, pertencer a um grupo ímpar de iluminados - que com certeza sabem de algo que eu, você e todo o resto não sabemos.

Sou civilizado, ando por aí me gabando inclusive. O meu desejo, quando não gosto de alguém, é que nossos caminhos sejam extremamente independentes um do outro, a ponto de podermos nos ver, sentar num bar, tomar uma cerveja e pá, no phone calls, sem pedir nada emprestado, sem vir aqui em casa ver um filminho. Desejo dinheiro, felicidade e milhares de quilômetros de distância.

Rock in Rio 2 de outubro

Só percebi que tinha feito a coisa errada quando chego na entrada e Pitty está no palco mundo. Lembrei que em seguida seria Evanescence. Daí em diante, me comprometi com o alcoolismo e pouco a pouco a Cidade dos Posers foi se transformando num lugar agradável, antropologicamente falando. Desconsiderem minha memória incompetente.

No show do Soad, passei no lugar errado na hora errada e tomei um belo catiripapo. Depois começou a chover. Um grupo samaritano me botou numa “capa” de chuva e tratei de achar um cantinho coberto para ouvir Guns n’ Roses – sem sucesso.

Fiquei no lugar mais silencioso: as cabines da Claro (com isolamento acústico). Você entrava nelas para falar no celular, entende. Dividi espaço com um casal carioca bem amistoso. Quando a chuva diminuiu, continuei procurando um canto coberto onde pudesse ouvir o show, só ouvir, repito, porque tava frio, molhado e não queria mais apanhar da multidão. Finalmente acho. E caio no sono. Patético.

Acordo com o Axl arranhando alguma coisa entre 'Sweet Child O’Mine' e 'November Rain'. Bateu uma vibe errada e me preparei pra ir embora, a noite tinha acabado comigo e eu ainda tinha que enfrentar duas horas até chegar em casa porque o sistema adotado pela organização envolvia ONLY ônibus. Eu deveria ter ido só no sábado - evitado a chuva, a fadiga e corações partidos.

Rock in Rio 1º de outubro

Cheguei no primeiro fim de semana do festival, mas só havia comprado tickets para o último sábado e domingo. Sinceramente, sem medo de ser chamado de playboy, só queria ver o show do Coldplay. Ou a cidade do rock não é tão grande quanto parece no mapa, ou talvez o aperto, o empurra-empurra e as filas fizeram tudo parecer um formigueiro humano. Logo quando cheguei, me perdi dos amigos e assim continuei até a hora de voltar pra casa. Funciona como analogia para outros campos da minha vida, ok.

Minha expectativa sob controle, foi possível aguentar os shows de todo resto. Só comecei a me aproximar do palco durante a sofrível apresentação do Maná. Mais de 100 mil bocejos, contabilizou a organização do evento. M5 tampouco me interessava, mas serviu para sair do coma induzido pela banda anterior. Vamos lembrar que minha versão leva em conta, tsctsc, meu ânimo. Quem quiser elogios para seus artistas favoritos não está no lugar certo.

Minha vontade maior era que o Coldplay enlouquece e resolvesse tocar só as músicas do X&Y. Fantasias a parte, o repertório (set list, pela pedância) me agradou completamente. Sabe, o show foi bem mágico. Era o último da noite. Chris deve ter acompanhado do camarim e se compadeceu por todos aqueles que passaram por Maná e sobreviveram, abriu o espetáculo com um “Obrigado por esperarem tanto”. Daí em diante, eu estava em boa companhia. Foi ‘o melhor show da minha vida’? Sim, foi.

Chris Martin no Palco Mundo
Recursos fáceis como chuva de papel picado, pedir resposta de ‘heey-hoow’, apontar o microfone pra galera e pôr a mãozinha no ouvido, ficam menos óbvios quando misturados com talento. Prova maior de carisma, e justamente pela simplicidade pueril, foram as músicas “Mas que nada” (Jorge Ben) e um “Olê, olê, olê”, carinhosamente dedilhadas por Chris. Ele também merece méritos por pichar o palco com “Ri♥”, abrir “Fix You” com os versos de “Rehab” e cair extasiado com os gritos de milhares de noveleiros cantando o refrão chiclete de “Viva La Vida”. O que vale é a perfomance.

Chorei feito uma criança que sente saudade dos pais, quando em uma viagem de férias à casa de parentes no interior. Em verdade, me despedia de minha adolescência loser, cheia de poesias ensimesmadas, melodrama mexicano e revoltinhas mimimi. Encerrar ciclos com um ritual, quem nunca? Naquela multidão, a cena era um cara gritando(!) as músicas e com as mãos pra cima, tentando agarrar fogos de artifício - e conseguindo. Adeus, anos 00’.

Meu troféu.

Rio de Janeiro taggeado

Estava no Rio, passei um tempinho. Deveriam fazer mais músicas sobre o céu nublado e o frio, porque a Bossa Nova vendeu essa imagem de verão o ano todo, pouco real quando desembarquei. Em Teresina a gente usa roupas só pela formalidade, então posso dizer que 15ºC (mais vento), não me são lá muito agradáveis. Quando acordei com o sol na janela pela primeira vez, topei pegar um bronze dali mesmo.

Dando uma de turista deslumbrado, a geografia da cidade é desconcertante. Só tinha ido por cidades predominantemente planas e esbarrar com morros em toda esquina tem seu charme, apesar de boa parte deles exalarem perigo. Na verdade fiquei a primeira parte da viagem em Niterói, cidade vizinha, mas ia ao Rio diariamente - um percurso desgastante, que aconselho enfrentar na base de dramin. Fora isso, o tour era ótimo.

Tentei diagramar as fotos (tiradas por mim) em miniaturas, cliquem para ampliar.