quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Rhye - The Fall


Essa versão apaixonante de The Fall foi colocada no canal do Rhye hoje e o duo deu uma entrevista também. =]

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Escola de dança Lunice

Sod off

Já machuquei pessoas, literalmente. Na sétima série coloquei o pé pra um garoto cair e ele quebrou a mão em alguns lugares. No outro dia ele foi o primeiro a me receber no portão do colégio com o gesso no braço, provando que o lance foi sério: “olha aqui o que você fez”. Acredito que ele tenha recuperado os movimentos e, claro, seguido em frente sem colocar meu nome em uma lista. É um procedimento padrão que envolve a distância e, como consequência, o esquecimento. Então um dia, do nada, uma lembrança pode chegar e não causar mais estrago nenhum. Não move ou demove. Não estou falando de indiferença, mas chega tranquilamente perto do limiar disso.

No fim das contas, a gente supera a morte do cachorro, a mudança de casa, a saída do emprego e o block nas redes sociais. Geralmente. Existe, em algum nível, um prazer estranho ligado à dor da ausência. Mesmo um amor que não dura tem o seu valor. Apesar da situação trágica, todas as lágrimas no travesseiro e os poemas intimistas mimimi (pode até ser um lance bonito, inspirador, forçar um amadurecimento), é mais comum que seja apenas ridículo e, em casos muito tristes, faz nascer a infeliz figura do stalker, o Social Media da obsessão afetiva.

Duas indicações pra tornar a experiência desse post menos individual, mas não menos batida: 1) Lemony Snicket (Daniel Handler) – o  autor de Desventuras em Série – lançou no fim do ano passado o “Why we broke up project”. É, dã, sobre pessoas que por uma razão ou outra terminaram seus relacionamentos, mas a parte menos óbvia e interativa é o tumblr que isso rendeu (mas que cansa depois da terceira página, ficando do naipe fmylife.com). 2) Outra aplicação interessante do conceito é Museum of Broken Relationships, onde objetos saem da fossa à moldura:
Whatever the motivation for donating personal belongings – be it sheer exhibitionism, therapeutic relief, or simple curiosity – people embraced the idea of exhibiting their love legacy as a sort of a ritual, a solemn ceremony.  Our societies oblige us with our marriages, funerals, and even graduation farewells, but deny us any formal recognition of the demise of a relationship, despite its strong emotional effect.
A importância de um chute bem dado é não deixar resquícios e admitir que outra pessoa siga com sua vida, por mais idiota que essa vida seja, é uma lei básica da existência e só não  está na Declaração Universal dos Direitos Humanos por falta de um grupo cyberativista na causa com boas hashtags. 

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Verão da destruição

1) Duas semanas atrás um cara anunciou o fim do mundo e preparou inclusive  um lugar pra esperar a hora certa (12 de outubro, às 16h). Ele juntou uma galera que acreditou na idéia e, tsc =~~ , não rolou que chato. Fizeram matérias no Daily Mail e no The Sun sobre a nossa versão baixo orçamento do Jim Jones.

2) Na semana seguinte, uma pane na rede de abastecimento de água deixa todo mundo sem banho por um ou dois dias, fato que se repetiu menos de 10 dias depois. Relembrando que isso acontece em Teresina que chega fácil aos 35°C no período de outubro à dezembro, tudo com pouquíssima umidade. São testes constantes de resistência. Faz calor e eu adoeço – tenho cá uma skin condition que combina muito pouco com o ambiente, então é uma situação realmente desestabilizante. Why so close Equador?

3) Nesse último fim de semana, pela piada, um apagão nos nove estados do nordeste brasileiro desligou os tão preciosos ventiladores do semi-árido. Além do drama cotidiano, os últimos acontecimentos, como a vitória do PSDB à prefeitura municipal, só me convencem que essa cidade tem uma aptidão natural ao apocalipse.

domingo, 7 de outubro de 2012

Billion years of love

Em 5 de setembro 1977 a Nasa lançou duas sondas gêmeas, as Voyager 1 e 2. A intenção original era estudar a região de Saturno e Júpiter por um período de dois anos. Há muito as sondas superaram em distância e utilidade a proposta inicial e  já dobraram a esquina do sistema solar. Elas se movem a 35 mil milhas por hora e estima-se que tem combustível suficiente pra seguir até 2020. Mês passado, 35º aniversário de lançamento, se encontravam a 16 e 13 bilhões de quilômetros do sol, respectivamente.

 Foto de Ganymede, a maior lua de Júpiter, tirada em 5 de março de 1979 pela VI. 

Afixado em cada sonda, um disco banhado a ouro conhecido por The Golden Record. Eles contem imagens e sons da Terra criptografados em código binário – coisas como cumprimentos em mais de 59 idiomas, fotos de diversos seres vivos, o som de um beijo, as primeiras palavras de uma mãe para um recém nascido e músicas de toda parte do globo. As Voyagers são os objetos criados pelo homem que se encontram mais longe e existe a probabilidade de que sejam a única evidência de nossa existência. Os engenheiros predizem que durarão pelo menos 1 bilhão de anos.


Os discos foram concebidos por Carl Sagan (<3) que inspirou-se em uma ocasião da sua infância, quando visitou a Feira Mundial de NY em 1939 e testemunhou o famoso enterro da cápsula do tempo Westinghouse. Essa é a versão oficial e bem conhecida. Nem tão popular assim, outra perspectiva envolve uma história de amor entre Sagan e Ann Druyan (diretora de criação do projeto Golden Record). Eles se apaixonaram durante o período em que trabalharam juntos, Carl se divorciou e eles passaram o resto da vida juntos.


Uma das ideias de Druyan foi medir os impulsos elétricos do cérebro humano e do sistema nervoso, transformar isso em som e gravar. Alguns dias depois de terem se declarado, ela foi ao Hospital Bellevue em NY e meditou enquanto os sons do seu cérebro e corpo eram captados. Ela disse ter pensado sobre “a maravilha do amor, de estar apaixonada”.

The Voyagers é um curta de Penny Lane feito a partir de montagens com imagens e vídeos de domínio público que conta essa história (que vi no Brain Pickings). Em uma entrevista perguntam pra ela o que ela colocaria caso tivesse a sua própria cápsula no espaço: “todas as cinco temporadas de Fryday Night Lights. E um cubo de Rubik, só pra confundir os aliens”. 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A Maçã

Semana passada a Casa da Cultura realizou a primeira Semana de Cinema Iraniano e como fazia muito tempo que não ia lá, aproveitei a oportunidade. Sai de casa no finzinho da tarde com Najila e, como previra o GMaps, foram uns 40 minutos de caminhada – atividade que gostaria que fosse frequente na minha rotina. O filme que assistimos foi o híbrido de ficção e documentário “A Maçã” (1998) e se for o caso de indicar uma resenha decente escolho a da RUA.

Antes de falar sobre o filme cabe um parágrafo sobre a diretora, Samira Makhmalbaf, que na época do lançamento tinha 17 anos, o que a tornou a mais nova da categoria no Festival de Cannes de 98. Em dois anos, “A Maçã’ foi exibida em 100 festivais internacionais e em mais de 30 países. A família inteira dela se dedica ao cinema, a começar pelo pai, Mohsen Makhmalbaaf, chegando ao ponto de já terem vendido a casa para custeio de algumas produções (reavendo-a em seguida).

A história do filme parte de um fato: um senhor e sua esposa cega mantém as duas filhas de 11 anos cerradas em casa desde que elas nasceram.Os vizinhos informaram à assistência social e o caso foi investigado. Os exames médicos das garotas revelaram a perturbadora condição: são fisicamente saudáveis, mas seriamente atrofiadas física e mentalmente (não conseguem andar ou falar direito, por exemplo). A parte mais importante: Samira começou as filmagens apenas 2 dias depois que o caso ganhou as manchetes nacionais. Mais importante ainda: os atores são justamente os reais envolvidos, representado cada um a si mesmo. Em 85 minutos, é uma história crua e lírica do Irã sobre si mesmo

“A Maçã” é além de um manifesto deslumbrante sobre liberdade, um imenso diálogo de contrastes com o ocidente. O fenótipo iraniano é exótico: a cor dos olhos, da pele, a textura do cabelo, o formato do rosto; a língua persa, principalmente a escrita, são totalmente incompreensíveis pra mim, o que não diminui o impacto, nem a imersão; a cultura do tabu, onde a mulher cobre seu rosto, braços e pernas acabando por fim enterrada sob aqueles panos imensos enquanto os homens se vestem do discurso sagrado, no qual tudo se justifica.

Vemos em closes desconcertantes a mulher subjugada  o extremismo religioso, a inoperância do papel social do Estado e quando enfim nos damos conta, estamos encarcerados juntamente com aquelas duas meninas. Embora seja óbvio a responsabilidade do pai sobre a situação, a diretora coloca a coisa toda em perspectiva. Em entrevista à Folha de São Paulo em 1998, Samira responde: “Não sou juíza, e cinema não é uma corte. Para mim, cinema é um espelho que você coloca na frente da sociedade [...] algumas pessoas podem mudar e se corrigir quando virem seu reflexo no espelho”. 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

It may hurt






Esse pessoal castigado lembra aqueles cartões de segurança na poltrona, todo mundo prozaqueado enquanto o avião despenca. São do ‘Wound Man’, um livro da Idade Média sobre ferimentos provenientes de batalhas ou acidentes: perfurações por facas, espadas, flechas; contusões por porretes e pedras e umas boas mordidas de animais. No mofino condicionamento doméstico é mais comum que ninguém queira levar nem um beliscão. Mesmo com provocantes ilustrações de diferentes níveis de fatalidade, os modelos não pareçam sentir tanta dor assim, talvez por hipoalgia.


O desejo de cura, uma reação instantânea do corpo doente, é uma coisa meio bélica. Ele reage febril e inchado, os anticorpos cavalgando em glóbulos brancos. E então chegam os fármacos, nossos portáteis exércitos de reforço, a cavalaria em cápsulas lipossolúveis. Gosto de remédios, acho a maioria bem intencionados. E chego a confiar em uma bem abastecida caixinha de remédios, desde que as bulas se encaixem em alguns limites. Porque prefiro os remédios às doenças no fim das contas. Sou de uma geração viciada em cura.

Mais cedo, fui procurar um antiácido na cestinha de automedicação. Encontrei umas pílulas pra pressão, relaxantes musculares, mas nenhum ENO ou coisa parecida. Uma azia besta de fim de quinta, implacável apesar da considerável quantidade de goles gelados.

Acho interessante os nomes dos remédios e as reações no corpo, de como é dito naquele texto cacofônico um quase simpático “calma, tou aqui pra te ajudar”. Daí de repente se estabelece essa linda e louca confiança popular. No universo das substâncias sintéticas devo uma ou duas palavras aos corticoides. No caso eles, segundo diz a bula super técnica, “entram no núcleo celular, ligam-se ao DNA e estimulam a transcrição do RNA-mensageiro e conseqüentemente a síntese protéica de várias enzimas inibitórias”, o que penso ser um evento e tanto. Se fosse mesmo, até pagaria pra ver ao vivo. Vejo nitidamente a cena de quando a picada de aranha inicia a mutação em Peter Parker. Nada acontece, infelizmente, com meus músculos ou com minha a capacidade de grudar em paredes. 

domingo, 19 de agosto de 2012

Sobre ir até o fim


Bukowski, que faria 92 essa semana se tivesse vivo, é radical quanto a começar e terminar as coisas:

If you’re going to try, go all the way. Otherwise, don’t even start. This could mean losing girlfriends, wives, relatives and maybe even your mind. It could mean not eating for three or four days. It could mean freezing on a park bench. It could mean jail. It could mean derision. It could mean mockery — isolation. Isolation is the gift. All the others are a test of your endurance, of how much you really want to do it. And, you’ll do it, despite rejection and the worst odds. And it will be better than anything else you can imagine. If you’re going to try, go all the way. There is no other feeling like that. You will be alone with the gods, and the nights will flame with fire. You will ride life straight to perfect laughter. It’s the only good fight there is. 

No muscles to show


No canto de uma página de um jornal qualquer vi um anúncio fitness no qual Mike, um nipo-americano hiper musculoso, propagandeava um programa de exercícios. Fiquei curioso porque tava lendo uma notícia séria e aquilo parecia deslocado da composição geral. Acho que fui só fisgado pelo contraste (e em grande parte em como aquilo não se encaixa na minha vida flácida). Daí clico e sou direcionado pra uma animação que explica como a parada funciona.

O nome do projeto é “sixpack shortcuts” e só então me toquei que se referia aos seis gominhos que brotam de barrigas saradas. O japa em questão apela para justificativas como “se torne atraente para mulheres e respeitável perante outros homens”. Tá. Lógico, o papel dele é fazer isso parecer fácil.

No mais, a animação seguia dizendo que aquele era o melhor método, blábláblá, um tal de “afterburn efect”, rapidez nos resultados, fácil de fazer em casa, cabe em rotinas atulhadas, etc. A retórica do atalho.

O que me faz lembrar um artigo sobre babar pelos corpos bonitos durante as Olimpíadas. A questão levantada gira em torno da admiração que, quase involuntariamente, eles inspiram.   São corpos com propósitos e nesse ponto se tornam invulgares porque indissociáveis de uma mente, se tratando não só máquinas de resultados, mas com um empenho gigante em se provar e superar limites – e isso fica latejando, sobretudo, na cabeça das pessoas que nunca o fazem.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Ballons



Rola um pouco de receio de estar enchendo balões furados. Básico: se a função do balão cheio de ar é voar, o destino dos balões vazios ou furados é cair. Essa metáfora é pertinente na medida em que usar o fôlego, gastar o ar à toa é bem foda. Funciona mais ou menos como nesses seriados nos quais a classe recebe ovos para cuidar como se fosse um filho. Eles se forçam a dar atenção, ficar de olho. É uma lição sobre o cuidado e exige um bocado de lucidez.

Acontece da autocrítica sair do controle e você sair olhando torto pra tudo que você acha que faz direito, pensando “tá certo isso, bom o suficiente?”. Quando eu tava terminando a monografia, portanto aquele momento meio tenso de se ver obrigado a vizualisar projetos de longo prazo, passava boa parte das noites com Lee e Yako. Somos amigos que podem se julgar sem relutância e sem pegar leve, porque, sério, pra quê camuflagens? 

Em uma daquelas noites fomos obrigados a lidar com a burocracia dos prazos. Lee teve que comprar passagens aéreas por telefone (dados, muitos dados!), eu tive que escrever meus slides da apresentação num guardanapo porque faltavam poucos dias e nunca tinha rolado a vibe antes, e Yako deveria acordar muito cedo - seria um dia importante no trabalho. Já eram duas da manhã e a gente tava bem alto. Embora a gente tenha conseguido, ficou aquela impressão de que, haha, a irresponsabilidade é muito sedutora. Em uma mão um balão, na outra uma agulha.

Os balões murchos desse post são do projeto Inflated/Deflated.

 

 

domingo, 5 de agosto de 2012

Nordic way

Descendo a barra de rolagem do G.reader, me deparo com um editorial da Hansen e me senti estranhamente familiarizado com o conceito e mais do que isso, com as situações nas quais os modelos foram enquadrados. Tem sido raro me identificar com alguma coisa que tem entre as tags o termo “fashion”. Talvez porque dessa vez, ao contrário do que se espera de modelos masculinos em páginas de revistas - exalando juventude e vivacidade - a marca dinamarquesa traz em suas imagens jovens senhores vestidos confortavelmente e sem extravagância. Btw, a fotografia é de BentRené Synnevåg.

Mais do que pensar no valor e no acesso às roupas da Hansen, acredito que o mais importante é ter sido tocado pela inspiração de seus criadores ao ponto de atentar para algumas de suas bases. Fora que nem de moda eu entendo pra me arriscar dando pitaco.


“Sunday Bests” combined with “Work Wear”. Às vezes, mais parece que equipe de fotografia seguiu um homem de seu escritório até a praia ou até o jardim da casa, onde, imagino, ele deva ir de vez em quando tomar um ar. E ele não mudou de roupa no caminho. Isso tira o peso da idéia do trabalho e diminui a distância de quem ele é, seja trabalhando, seja curtindo a paisagem sentado num rochedo. Apesar do ar indiscutivelmente adulto é possível sentir certa leveza.

“The message of HANSEN is clear: simple, honest and democratic everyday wear with longevity”. A descrição segue dizendo que coisas como “consumismo” e “tendência” foram deixados pra trás. Existe também uma naturalidade/sobriedade nas cores: preto, branco, alguns tons de azul e de  marrom e outras matizes sutis. O nome responsável pela marca é Aase Helena Hansen, sueca residente na Dinamarca. “Força silenciosa” é o que ela diz melhor descrever a coleção do ano passado, mas acredito ser uma constante até hoje. São peças que, segundo ela, são desejáveis na medida em que são compreensíveis (e justamente funcionais).


terça-feira, 19 de junho de 2012

Haircut

Lee veio dormir aqui em casa. A gente acordou meio dia, almoçou, dormiu de novo e quando levantamos no fim da tarde, ela pediu pra cortar meu cabelo. Deixei porque não me importo mais e também seria divertido - ou seja, não rolou rebeldia, deprê nem coisa nenhuma. Pegamos tesouras grandes, fomos para um espaço aberto e começamos o trabalho.  Os primeiros tufos no chão foram os mais dramáticos.

Quando não deu mais pra cortar com tesoura, peguei o creme de barbear e o barbeador. Foi, talvez, a parte mais complicada porque só tínhamos um barbeador de três lâminas. Todas elas estão cegas agora. Nunca tinha raspado a cabeça (mas já cheguei bem próximo), nem mesmo na época do vestibular. É uma bobagem, mas não sou muito bom com rituais. Em todo caso, cabelo é só um acessório: prefiro muito mais um estômago bem regulado.

Hoje de manhã quando minha mãe bateu na porta do quarto para pedir alguma coisa, não chegou nem a terminar a frase: “...O QUE FOI QUE TU FEZ?!”. Nada, só raspei a cabeça, disse ainda dormindo. Ela ficou por um tempo disparando perguntas atônitas. Saiu de casa meio chocada, o que é relativamente normal quando pais se dão conta que perderam o controle de algumas coisas básicas.

Firestarter

 Mamimi Samejima, uma incendiária.

A tocha olímpica já começou sua viagem. Acesa na Grécia, hoje deve estar em algum lugar da Grã Bretanha. É uma teatralização do mito de Prometeu (o cara que roubou o fogo de Zeus para entregar aos mortais). Os gregos tem um pitaco pra dar sobre tudo que existe, afinal.

A ideia do fogo enquanto um agente purificador é antiga. As vítimas da inquisição eram higienizadas espiritualmente com chamas, embora não conseguissem sobreviver para atestar o processo; na agricultura primitiva, as queimadas controladas serviam pra limpar o terreno e, por definição, ‘limpeza’ significa livrar da sujeira, clarear, pureza, enfim. Vem do latim “limpidus”.  

A história da razão também tomou de empréstimo essa analogia luminosa – por exemplo, o conhecimento para os Iluministas era jogar luz no mundo. Além do que, somos animais diurnos, o que levou a maioria das civilizações a adotarem o sol (essa bola de fogo imensa e brilhante) como um referencial positivo, às vezes sagrado. E bem, o domínio do fogo teve um papel decisivo para a evolução. Portanto, o fogo - essa reação tanto química quanto física – é foda.

Queimar alguma coisa é livrar-se dela de forma definitiva. Mais forte do que rasgar ou abandonar na estrada ou simplesmente deixar pra trás. Mais do que simplesmente destruir, pode ser um indicativo de renovação. H. D. Thoreau conta uma ou duas coisas interessantes que envolvem essa interpretação, segue o quote:

Quem sabe poderíamos, com proveito, imitar os costumes de algumas nações selvagens, que uma vez por ano procedem como se abandonassem sua pele velha? Elas têm a intuição da coisa, quer tenham ou não a realidade. Não seria tão bom se celebrássemos um busk ou "festa dos primeiros frutos", tal qual faziam os índios Mucclasse, na descrição de Bartram? "Quando um povoado celebra o busk," diz ele, "tendo de antemão se abastecido de roupas, vasilhas e panelas novas, além de outros móveis e utensílios domésticos, juntam todas as roupas usadas e demais objetos desprezíveis, varrem e limpam as casas, a praça e a cidade inteira, jogando o lixo, os grãos que sobraram e outras provisões velhas num monte comum em que tocam fogo. Depois de tomarem remédios e jejuarem três dias, o fogo é totalmente apagado. Nesse período de jejum, a população se abstém de satisfazer qualquer tipo de apetite ou paixão. Proclama-se uma anistia geral e os malfeitores podem retornar ao povoado.

“Na quarta manhã, o sumo sacerdote, esfregando lascas de madeira seca na praça pública, produz um fogo novo, do qual chamas novas e puras são distribuídas por todas as habitações." Então eles festejam comendo milho verde e frutos, dançando e cantando durante três dias "e nos quatro dias seguintes recebem visitas e se confraternizam com os amigos das aldeias próximas, que por sua vez já se purificaram e prepararam de modo parecido".

Os mexicanos também praticavam uma purificação semelhante ao fim de cada cinqüenta e dois anos, na crença de que já era tempo de o mundo acabar.

Raramente ouvi falar de um sacramento mais verdadeiro do que esse, isto é, "sinal visível exterior de uma graça espiritual interior", segundo a definição do dicionário, e não ponho em dúvida que na origem foram diretamente inspirados dos céus para agir assim, conquanto não haja texto bíblico para a revelação.

Baita desapego. Sendo extremo, acho tranquilo quem topa ser cremado, se tornar cinzas, etc. Nessa perspectiva, o calor das paixões e da presença não é tão incrível se comparado ao calor das ausências. 

domingo, 17 de junho de 2012

But i'm doing it anyways


Isso é só uma consideração, uma nota de rodapé. Um post-it no canto da página. Não é tão simples explicar a ideia toda (admitindo que aqui eu tenha a quem explicar alguma coisa). O headline superficial seria algo como: resolvi tirar férias de tudo e levar uma vida sabática por uns meses. Mas de fato, é uma imersão sinistra e vai tomar algumas dúzias de posts. Provavelmente nem consiga falar a respeito porque, francamente, é muita informação e dai vou ficar parecendo meio maluco sem saber filtrar - isso se a gente considerar que a base para falar sobre nossas experiências incríveis é não fazer isso de um jeito muito idiota. Não que eu consiga, mas é o que continuo fazendo. 

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Sonar dia 12


No segundo dia de festival cheguei muito atrasado. Além da demora dos amigos, esqueci a identidade da Lee no hotel e deu o maior trabalho encontrar, com internet podre de celular, um e-mail onde tivesse o documento digitalizado pra mostrar. Não acredito que muitas outras festas aceitariam esse artifício.
Eski

Click Box usando o Ableton Live.

No SonarPro, peguei o finzinho da apresentação do cara do Eski, na qual ele falava das instalações e projetos de aplicação de tecnologia em espetáculos, principalmente da que rolou em Coachella pro Arcade Fire. Achei ótimo o conceito de fazer com que o público interaja mesmo com o momento. Depois entrou o duo brasileiro Click Box pra ilustrar o funcionamento de uma plataforma pra DJs chamada Ableton Live. Foi quando me toquei que não adiantava prestar atenção naquilo, não conseguiria entender independentemente da minha boa vontade. Era um espaço pra profissionais e não é o meu caso, sou totalmente ok em admitir.

Fui encontrar o pessoal no Hall, onde Alva Noto e Ryuichi Sakamoto, um “artista eletrônico virtual” e um pianista estavam batendo um papo estranho, cada um com sua linguagem. Demorou um tempo pra lidar com a cena. Sendo franco, é difícil falar do Sonar. Foi uma experiência bastante complexa e transformá-la em palavras é bem complicado. Pra começar não é meu universo de conforto, e em segundo lugar eu não estava nem um pouco interessado em cobrir, ahm, jornalisticamente, apenas em me permitir ao contato com um contexto distante do meu. E fico feliz em ter conseguido.

No Sonar Club depois de Rustie veio Flying Lotus, um cara de carisma incrível e de batidas inspiradas. Mas o que me fisgou mesmo foram as animações que eram ritmadas com o set dele. Animal. Uma passadinha no Mogwai me fez entender a presença de guitarras no festival: não eram acústicas, mas distorcidas. Engraçado que em alguns momentos parecia um coral etéreo sustentando uma nota – ué, mas a voz é fruto de cordas ( só que vocais), me toquei do óbvio.


Quando fui ver Justice, já estava bem doido - o que acho extremamente coerente. Foi impossível não dançar feito um idiota com aquele set desconcertante. Eles apelaram: We Are Your Friends é a prova disso. Pular foi involuntário. Por sorte estava entre pessoas que não ligavam a mínima. Não sou mais um adolescente, porque né. Meu sapato estourou e quase todos os botões da jaqueta foram arrancados com atrito da multidão. Um grupinho metido a interventores tascou umas linhas de tinta azul no meu rosto que me dava um ar alucinado.

Drama: perco minha mochila com minha câmera dentro. Corro pra procurar e a moça do staff me leva no Achados&Perdidos – mas não sem um (real) puxão de orelha. Até ela entender que eu não estava chapado e me respeitar, demorou um pouco. Brigado, moça.

Monstro.

Squarepusher. Nada havia me preparado pra isso. Nada. Por alguns momentos eu desisti da humanidade e me transformei num pacote de dados – não havia muito espaço pra coexistir com as ondas sonoras destruidoras e as projeções em led ultra impactantes. Lee começou a chorar: não porque estivesse de alguma forma emocionada, mas porque era muito difícil fechar os olhos. Ele, ao contrário, não teve uma gota de misericórdia e deixou todo mundo em transe. Foi quando fiquei com medo de dar um treco naquele teatro. Sei lá, um encanto assustador. Sabe aquele episódio de Pokemon que uma galera deu uns ataques epiléticos no Japão? Eleve à potência. Sério.

Ainda meio incrédulo, fui andando devagarzinho pra ver o Orlando (sim, essas pessoas  tem nome) do Totally Enormous Extinct Dinossaurs. Ele é, haha, tipo a versão masculina (e melhorada) da Claire, do Grimes. Um querido! Foi a maneira mais animada de terminar a noite.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Sonar dia 11

Quando a gente chegava na entrada, entregavam o óculos 3D (ao todo, foram distribuídos 15 mil). Pensei que, como geralmente acontece, não seria um recurso bem explorado e deixei guardado no bolso. Me enganei, sou obrigado a admitir, mas só perceberia isso depois da (ótima) apresentação de James Blake. Engraçado como aquela cena se repetiria: um cara em meio a uma pickup de botões, fios e luzes. Não haviam rockstars – era um festival sem guitarras (com algumas raras exceções).


Blake

Quando os primeiros acordes de The Robots ecoaram no galpão do Sonar Club, anunciando os quatro senhores do Kraftwerk, a projeção 3D foi disparada. A simplicidade dos pais da música eletrônica como a conhecemos foi uma aula propedêutica. Os princípios, eles estavam todos lá. O show no Sonar foi o compacto de uma retrospectiva de 8 dias de toda a produção do quarteto, no MoMa, realizada em abril desse ano. 


A tecnologia aplicada tornou tudo muito pouco diferente de mágica. Eles nos levaram pra uma realidade praticamente sem fronteiras – que é o conceito do festival inteiro: música avançada e novas mídias artísticas. 

O grupo alemão mudou: apenas um integrante original permanece. O contexto em que o Kraftwerk surgiu, entretanto, ainda está presente em sua obra. O pós-guerra e o mundo bipolarizado assombrado pelo terror da hecatombe nuclear parecem estranhamente recentes quando eles sintetizam Sellafield. Os números de Computer World são cruéis e o final da equação “Business, Numbers, Money, People” revela onde estamos no rank.



As coisas mudaram pra valer, afinal. Se a Alemanha dividida da década de 80 trazia em seu cabeçalho o socialismo e, portanto, a preocupação extrema com o ser humano, é ela hoje quem gere a crise européia – com base em medidas de austeridade questionáveis. A Grécia, emblema desse caos, sofre não por causa da relação homem-homem, mas pelo impacto de euros que nem sequer existem (são valores virtuais). E é essa a natureza da crise monetária mundial (ela é tanto de mercado quanto de governabilidade). É a vitória da máquina que Kraftwerk anunciam em The Man-Machine. E nós somos os robôs, eles já haviam deixado claro.

Um passeio pela superfície do planeta, pelos prédios da cidade, pelos números, pela França (de bicicleta) e pela música. E como eu estava precisando daquela Autobhan. 


Pude quase tocar tudo. Satélites passaram dentro do corpo de milhares de espectadores, na multidão. Um trem atravessa o galpão, “atropelando” os nerds desengonçados que dançavam de um jeito muito divertido e no mínimo autêntico. Notas musicais chovem e a música não pode parar. Quase sem fôlego, ouço as últimas ondas. Tiro o óculos 3D e, exausto, precisei descansar por algum tempo. Algumas pessoas não entenderam e mantiveram o adereço durante toda a madrugada.

Little Dragon

Na acústica perfeita do teatro do Sonar Hall, recobro a vitalidade com Little Dragon, uma banda (sem guitarras) sueca. A vocalista (função raramente presente nesse mundo eletrônico) é extremamente carismática e suas peculiaridades são bem vindas, principalmente em São Paulo: Nagano é metade nipônica, metade sueca e tem uma bunda de proporções latinas. Satisfeito com Little Man e Ritual Union, sentei um tempinho pra desamarrar os cadarços.  O show deles serviu pra me reavivar e seguir pelos outros palcos, mas sem interesse específico. 

Skream ft. Sgt. Pokes. Agressivos.

O Sonar Village era o lugar dos baladeiros profissionais. Infelizmente, nenhum deles me ofereceu drogas, mas, por sorte a atmosfera era lisérgica o suficiente e fiquei legally high. De volta ao Club, Chromeo é uma das últimas coisas que lembro do primeiro dia. Com a cabeça inundando de sons artificiais que só existiram ali, vou pro hotel digerir todo aquele fractal audiovisual.

terça-feira, 15 de maio de 2012

SonarPro dia 11 - Reactable



Quando comprei os ingressos pro Sonar SP no início do ano, não imaginava que seria surpreendido tantas vezes. Estou longe do que possa ser considerado um fã de DJs e sets, mas admiro muito as possibilidades da música eletrônica. Por isso acabei me inscrevendo no SonarPro, um espaço dentro do festival pra apresentação e discussão de novas tecnologias, plataformas, instalações e conceitos – esse conjunto tornou a experiência muito mais marcante.

A primeira atração da noite, pra mim, é justamente no Sonar Pro. Numa sala com pouco mais de 100 de pessoas, Günter Geiger, um dos criadores do Reactable explicou como ele foi desenvolvido e o potencial daquela mesa circular – "uma forma geométrica democrática". Criado em 2005 foi apresentado pela primeira vez na International Computer Music Conference, em Barcelona. 


O “instrumento” funciona com base em projeções. Os símbolos impressos nas peças, em cada faceta, são reconhecido por uma câmera e isso gera uma reação sonora específica. “É difícil pra gente, mas simples pro computador”, Günter ri quando um dos espectadores diz que aquilo parece uma coisa alienígena.

Não existem botões, controles, alavancas ou teclas. É um aparelho relativamente simples, intuitivo e de fácil manuseio. Uma criança amaria e um adulto sentiria o prazer infantil de uma brincadeira. Mas só na superfície, porque é possível ir cada vez mais fundo naquilo. Cada peça possui opções extras e quase ilimitadas de arranjo e interação. Isso fica muito mais claro na versão mobile, desenvolvida para Ipad – e em torno dela, principalmente, cresce a comunidade do Reactable

A tecnologia aplicada é cara e produzida em pequena escala o que justifica os 7.000 euros necessários pra comprar o aparelho original - instituições como museus e galerias são os clientes mais comuns. Isso também influencia na maior atenção que os desenvolvedores dedicam às versões móveis. A apresentação encerrou com uma demonstração de Gui Boratto, que utilizou o Reactable em algumas de suas composições. 

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Sofrer


Tive esse sonho hoje a noite no qual meio milhão de pessoas parava pra conversar comigo e eu não encontrava uma posição confortável. O tema era alguma coisa sobre organização, cada um vinha e dizia uma coisa diferente. Cansativo. Acordo de madrugada com uma puta febre e dor no corpo inteiro, como se tivesse sido alvo de um pelotão de fuzilamento com balas de borracha – o que é bastante plausível nesse país.

Como não tinha energias pra pedir socorro online ao Google, fui no quarto da minha mãe, walking dead, esbarrando em tudo. Ela acorda e fica rindo dos meus gemidos de dor, falando que eu não conseguiria ir pro Sonar. Achei cruel. Em resposta, tinha a solução: trocar todo meu sangue doente por litros de sangue sadio. Hemodiálise do desespero.  Ela achou engenhoso, mas preferiu me dopar com Tylenol. 

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Maquete


Gosto de pensar no processo criativo dos outros, o porquê e como as pessoas fazem o que fazem - suas conexões e a forma que organizam suas experiências. Me pego verificando plataformas e tentando entender o grau de envolvimento entre a ideia e a técnica utilizada pra comunicá-la. No fundo tudo se resume a leitura. Ler um vídeo, uma música, por assim dizer, faz todo o sentido uma vez que estamos lidando com linguagens. Lógicas codificadas. Assisto os making offs, live streams, vejo o blog da marca, baixo as soundtracks dos filmes e vou atrás do artbook do cenário. Pelo contexto, sabe.

Tenho uns dois exemplos pra explicar essa ideia. O primeiro envolve a editora Companhia das Letras que após algumas polêmicas (que não vou entrar no mérito agora) decidiu patrocinar o projeto Amores Expressos, idealizado pelo produtor cultural Rodrigo Teixeira: 16 escritores brasileiros foram enviados para 16 cidades em países diferentes ao redor do mundo, onde passaram 30 dias. Eles captaram, cada um a seu modo, algumas impressões e então cada escritor retornou com um enredo para um romance ambientado na cidade em que esteve – os livros estão sendo publicados pela editora (ela pode recusar fazer isso caso não goste do resultado, tá no contrato – tem que render simbolicamente e materialmente, normal).

Paralelo a isso, o projeto incluía alimentar um blog pessoal, onde os autores dividiam com o público o que passavam, pensavam ou simplesmente viam. Ou seja, o autor não estava isolado do mundo, imerso apenas naquela situação. A Companhia das Letras ainda gravou mini documentários depoimentais com os escritores, ou seja, de uma forma ampla, desnudou o processo criativos daquelas pessoas, uma coisa deliciosa que faz o Youtube ainda valer a pena. Destaco três que mais gostei: Lourenço Mutarelli (NY), Antonia Pelegrino (Mumbai) e Joca Reiners Terron (Cairo).

O segundo exemplo também é literário. Em seu blog Michel Laub, se propôs a um desafio dos 100 escritores (que nunca veríamos no Facebook), onde ele pede para eles falarem sobre suas manias. Me senti menos mal por algumas que possuo.

Por fim, um extra: numa entrevista, uma pintora francesa explica porque cria. Isso conclui o post. =]


Why do you create? What is it about being creative that makes it something important for you to do?"I create because I have no other choice, and I am very bad at any other occupation. Creating is part of my personality and if you remove it from me, I may become a ghost."

sábado, 21 de abril de 2012

Do lar


Cheguei em casa do trabalho e a Vera tava aqui. Durante muito tempo ela cuidou da casa e, direta e indiretamente de mim na infância - e sério, cozinha muito bem. Ela e minha mãe são amigas e se visitam com alguma frequência. Hoje a Vera tava conversando com a menina que trabalha aqui atualmente. Do meu quarto, consegui ouvir a parte em que elas falavam de mim, rindo muito,que indelicado haha:

Vera – E ele ainda suja muita roupa?
Antônia – Normal, e agora que trabalha o dia todo, nem tanto.
Vera – E o quarto, muita bagunça?
Antônia – Muita, não sei porquê ainda tento. O pior é quando arrumo a cama da mãe dele. Se ele deitar é capaz dela pensar que não fiz nada. Quem vê depois jura que rolou um assaltado. O menino parece um furacão. HAHA

Calma, quando eu fizer 13 anos melhoro, prometo.


quinta-feira, 19 de abril de 2012

Corrão


Atenção você pedestre, militantes e grevistas, aqui vai um bom motivo pra olhar pros dois lados da via antes de paralisar o trânsito: em breve estarei dirigindo. É sério, não é mais um alarme falso. Até o momento só atropelei cones, mas não vamos arriscar, né - pelo menos até eu ter diferenciado satisfatoriamente o freio da embreagem - este pedal patético e já superado, que deveria ser abolido pra sempre. Fica o apelo.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Handwrite


Perdi meu bloco de anotações. Esteve sempre por perto e por isso mesmo era o mais surrado e feio. Tenho outros, claro, e ficaria igualmente chateado se os perdesse - o nível dependeria da quantidade de informações disponíveis. Telefones, endereços, pautas agendadas, setas, esboços e riscos aleatórios. “Uma bagunça”, diria qualquer um. O bloquinho tem lógica própria, poderia responder. A gente põe o que quer, oxente.

É um item de necessidade primária na mochila. Historicamente, os blocos são leais aos desígnios (mais ou menos) relevantes da humanidade, rs. Alguns rabiscos e voilà: uma idéia toma forma. O suporte dos protótipos, das poesias e de uma infinidade de projetos que talvez nunca saiam dali (felizmente, quem sabe). Por vezes encontramos por aí, como a imagem do topo, os manuscritos originais – gosto particularmente de letras de músicas que não foram gravadas, uma vez que nem tudo rende na indústria pop.

Mas hoje as letras são só imagens, um arranjo binário compondo o layout. As alternativas digitais se popularizaram, é fácil perceber nos celulares, tablets, etc. Então o registro manuscrito, o cursivo, o contato guiado do lápis sobre o papel se tornaram até um fetiche.

A Grafologia pode revelar, por exemplo, que marcas da personalidade estão presentes nos pingos dos “i”s. Chega a ser bastante útil em perícias criminais. Eu teria que explicar que aprendi a escrever com minha irmã (a letra dela é muito melhor, confesso) pra não ser taxado de sexualmente confuso.

No blog do editor Shaun Usher, descobri seu fascínio por garranchos. Um guia prático por sua coleção é uma matéria sobre cartas de amor escritas por “pessoas famosas” (existe termo mais cafona?) clicando aqui.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Criar e destruir

Camille Claudel (1864-1943) à direita.

Se hoje as pessoas demonstram o amor de forma virtual, através de pixels, seja em sms ou inboxes, em outros tempos cartas, poesias, músicas e pinturas ocupavam esse lugar. Não sou saudosista, a ideia é outra. Conheci recentemente uma história específica, e por isso considero marcante, da relação entre duas pessoas que foi expressa através de esculturas: marcado em estátuas de bronze e mármore por Camille Claudel e Auguste Rodin, escultores franceses, o percurso de um romance simbiótico que dá terrivelmente errado. Prefiro contar sob a perspectiva dela, a minha favorita, pra quem as coisas terminam de forma trágica.

Ainda pequena demonstrou vocação pra escultura, mas era um ofício extremamente masculino e caro. O machismo instaurado naquela época era tal que mulheres não podiam nem mesmo estudar o corpo nu “por razões morais”, por exemplo. Por acreditar em Camille, seu maior incentivador, o pai, muda-se com a família pra Paris, onde ela começa a ter aulas e acesso ao círculo artístico. É nesse contexto que a aluna conhece o instrutor, Auguste Rodin, em 1883. Mais tarde ela passa de assistente a amante e, nesse meio termo, é também musa. Sem dúvida, ela o inspirava. [leia mais]

Embora ele tivesse 45 e ela 19, o estilo dos dois é semelhante em técnica, mas a sensibilidade dela é incrivelmente singular, então Rodin confia a Camille a incumbência de moldar principalmente os pés e as mãos, que era por onde ele expressava as emoções de suas obras. Com o passar do tempo ela se tornou o membro de maior estima da equipe de escultores de Rodin, que ascendia em prestígio na medida em que recebia grandes encomendas do governo francês. Ela, apesar de seu brilhantismo, nem tanto. [leia mais]

Enquanto durou o affair, ambos esculpiram obras paralelas, embebidas na relação carnal intensa. É incrível ver cada escultura dela e relacionar com o nível de envolvimento com Rodin, principalmente quando ele acaba. Camille então entra em sua fase mais criativa, motivada principalmente pela busca de um estilo próprio. Entretanto, a proximidade com Rodin havia fincado raízes fundo demais, no sentido destrutivo e patológico do termo. [leia mais]

Uma obra capaz de fornecer um resumo seria A Idade Madura (L’Age Mûr). Na escultura, uma mulher abandonada pelo amante, imersa em dor, no chão. Ela marca o rompimento definitivo dos dois. [leia mais]

Adoecida emocionalmente pela obcessão, ela chega ao ponto de destruir tudo que cria, isolada em seu pequeno atelier. Sozinha, no escuro e em silêncio, rodeada apenas por blocos quebrados de seus moldes e uma infinidade de gatos, ela havia falhado em conseguir firmar uma identidade, pessoal ou artística, separada de Rodin. Com a mente em frangalhos e relegada pela família, ela acaba em um hospital psiquiátrico, no qual passa 30 anos internada – sem ter voltado a esculpir – e morre aos 79. [leia mais]

Enfim, a entrega e devoção dessa artista esplendorosa a um homem que exercia o papel de mestre, de amante e de pai é que parece lhe aproximar de uma neurose obsessiva. A arte de Camille só se sustentou enquanto pôde estar associada ao escultor mais famoso da França na época, Auguste Rodin. Mas a história foi além, pois a arte de Claudel era para si constitutiva, organizadora, possibilitadora de uma vida em sociedade. Quando lhe tiraram esse caminho, quando não foi mais possível o reconhecimento de sua arte pelas mãos daquele que era para si o mestre, o nomeador, a sua obra – e vida – tornaram-se insuportáveis, pois sem valor. - Uma hipótese de neurose obsessiva em Camille Claudel

Um filme biográfico, que eu preciso ver, foi gravado em 1988.