quinta-feira, 6 de setembro de 2012

It may hurt






Esse pessoal castigado lembra aqueles cartões de segurança na poltrona, todo mundo prozaqueado enquanto o avião despenca. São do ‘Wound Man’, um livro da Idade Média sobre ferimentos provenientes de batalhas ou acidentes: perfurações por facas, espadas, flechas; contusões por porretes e pedras e umas boas mordidas de animais. No mofino condicionamento doméstico é mais comum que ninguém queira levar nem um beliscão. Mesmo com provocantes ilustrações de diferentes níveis de fatalidade, os modelos não pareçam sentir tanta dor assim, talvez por hipoalgia.


O desejo de cura, uma reação instantânea do corpo doente, é uma coisa meio bélica. Ele reage febril e inchado, os anticorpos cavalgando em glóbulos brancos. E então chegam os fármacos, nossos portáteis exércitos de reforço, a cavalaria em cápsulas lipossolúveis. Gosto de remédios, acho a maioria bem intencionados. E chego a confiar em uma bem abastecida caixinha de remédios, desde que as bulas se encaixem em alguns limites. Porque prefiro os remédios às doenças no fim das contas. Sou de uma geração viciada em cura.

Mais cedo, fui procurar um antiácido na cestinha de automedicação. Encontrei umas pílulas pra pressão, relaxantes musculares, mas nenhum ENO ou coisa parecida. Uma azia besta de fim de quinta, implacável apesar da considerável quantidade de goles gelados.

Acho interessante os nomes dos remédios e as reações no corpo, de como é dito naquele texto cacofônico um quase simpático “calma, tou aqui pra te ajudar”. Daí de repente se estabelece essa linda e louca confiança popular. No universo das substâncias sintéticas devo uma ou duas palavras aos corticoides. No caso eles, segundo diz a bula super técnica, “entram no núcleo celular, ligam-se ao DNA e estimulam a transcrição do RNA-mensageiro e conseqüentemente a síntese protéica de várias enzimas inibitórias”, o que penso ser um evento e tanto. Se fosse mesmo, até pagaria pra ver ao vivo. Vejo nitidamente a cena de quando a picada de aranha inicia a mutação em Peter Parker. Nada acontece, infelizmente, com meus músculos ou com minha a capacidade de grudar em paredes. 

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