Esse pessoal castigado
lembra aqueles cartões de segurança na poltrona, todo mundo prozaqueado
enquanto o avião despenca. São do ‘Wound Man’, um livro da Idade Média sobre
ferimentos provenientes de batalhas ou acidentes: perfurações por facas,
espadas, flechas; contusões por porretes e pedras e umas boas mordidas de
animais. No mofino condicionamento doméstico é mais comum que ninguém queira
levar nem um beliscão. Mesmo com provocantes ilustrações de diferentes níveis
de fatalidade, os modelos não pareçam sentir tanta dor assim, talvez por
hipoalgia.
O desejo de cura, uma reação
instantânea do corpo doente, é uma coisa meio bélica. Ele reage febril e
inchado, os anticorpos cavalgando em glóbulos brancos. E então chegam os
fármacos, nossos portáteis exércitos de reforço, a cavalaria em cápsulas
lipossolúveis. Gosto de remédios, acho a maioria bem intencionados. E chego a
confiar em uma bem abastecida caixinha de remédios, desde que as bulas se
encaixem em alguns limites. Porque prefiro os remédios às doenças no fim das
contas. Sou de uma geração viciada em cura.
Mais cedo, fui procurar um
antiácido na cestinha de automedicação. Encontrei umas pílulas pra pressão,
relaxantes musculares, mas nenhum ENO ou coisa parecida. Uma azia besta de fim
de quinta, implacável apesar da considerável quantidade de goles gelados.
Acho interessante os nomes
dos remédios e as reações no corpo, de como é dito naquele texto cacofônico um quase
simpático “calma, tou aqui pra te ajudar”. Daí de repente se estabelece essa
linda e louca confiança popular. No universo das substâncias sintéticas devo
uma ou duas palavras aos corticoides. No caso eles, segundo diz a bula super
técnica, “entram no núcleo celular, ligam-se ao DNA e estimulam a
transcrição do RNA-mensageiro e conseqüentemente a síntese protéica de várias
enzimas inibitórias”, o que penso ser um evento e tanto. Se fosse mesmo, até pagaria
pra ver ao vivo. Vejo nitidamente a cena de quando a picada de aranha inicia a
mutação em Peter Parker. Nada acontece, infelizmente, com meus músculos ou com
minha a capacidade de grudar em paredes.




Nenhum comentário:
Postar um comentário