sábado, 21 de abril de 2012

Do lar


Cheguei em casa do trabalho e a Vera tava aqui. Durante muito tempo ela cuidou da casa e, direta e indiretamente de mim na infância - e sério, cozinha muito bem. Ela e minha mãe são amigas e se visitam com alguma frequência. Hoje a Vera tava conversando com a menina que trabalha aqui atualmente. Do meu quarto, consegui ouvir a parte em que elas falavam de mim, rindo muito,que indelicado haha:

Vera – E ele ainda suja muita roupa?
Antônia – Normal, e agora que trabalha o dia todo, nem tanto.
Vera – E o quarto, muita bagunça?
Antônia – Muita, não sei porquê ainda tento. O pior é quando arrumo a cama da mãe dele. Se ele deitar é capaz dela pensar que não fiz nada. Quem vê depois jura que rolou um assaltado. O menino parece um furacão. HAHA

Calma, quando eu fizer 13 anos melhoro, prometo.


quinta-feira, 19 de abril de 2012

Corrão


Atenção você pedestre, militantes e grevistas, aqui vai um bom motivo pra olhar pros dois lados da via antes de paralisar o trânsito: em breve estarei dirigindo. É sério, não é mais um alarme falso. Até o momento só atropelei cones, mas não vamos arriscar, né - pelo menos até eu ter diferenciado satisfatoriamente o freio da embreagem - este pedal patético e já superado, que deveria ser abolido pra sempre. Fica o apelo.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Handwrite


Perdi meu bloco de anotações. Esteve sempre por perto e por isso mesmo era o mais surrado e feio. Tenho outros, claro, e ficaria igualmente chateado se os perdesse - o nível dependeria da quantidade de informações disponíveis. Telefones, endereços, pautas agendadas, setas, esboços e riscos aleatórios. “Uma bagunça”, diria qualquer um. O bloquinho tem lógica própria, poderia responder. A gente põe o que quer, oxente.

É um item de necessidade primária na mochila. Historicamente, os blocos são leais aos desígnios (mais ou menos) relevantes da humanidade, rs. Alguns rabiscos e voilà: uma idéia toma forma. O suporte dos protótipos, das poesias e de uma infinidade de projetos que talvez nunca saiam dali (felizmente, quem sabe). Por vezes encontramos por aí, como a imagem do topo, os manuscritos originais – gosto particularmente de letras de músicas que não foram gravadas, uma vez que nem tudo rende na indústria pop.

Mas hoje as letras são só imagens, um arranjo binário compondo o layout. As alternativas digitais se popularizaram, é fácil perceber nos celulares, tablets, etc. Então o registro manuscrito, o cursivo, o contato guiado do lápis sobre o papel se tornaram até um fetiche.

A Grafologia pode revelar, por exemplo, que marcas da personalidade estão presentes nos pingos dos “i”s. Chega a ser bastante útil em perícias criminais. Eu teria que explicar que aprendi a escrever com minha irmã (a letra dela é muito melhor, confesso) pra não ser taxado de sexualmente confuso.

No blog do editor Shaun Usher, descobri seu fascínio por garranchos. Um guia prático por sua coleção é uma matéria sobre cartas de amor escritas por “pessoas famosas” (existe termo mais cafona?) clicando aqui.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Criar e destruir

Camille Claudel (1864-1943) à direita.

Se hoje as pessoas demonstram o amor de forma virtual, através de pixels, seja em sms ou inboxes, em outros tempos cartas, poesias, músicas e pinturas ocupavam esse lugar. Não sou saudosista, a ideia é outra. Conheci recentemente uma história específica, e por isso considero marcante, da relação entre duas pessoas que foi expressa através de esculturas: marcado em estátuas de bronze e mármore por Camille Claudel e Auguste Rodin, escultores franceses, o percurso de um romance simbiótico que dá terrivelmente errado. Prefiro contar sob a perspectiva dela, a minha favorita, pra quem as coisas terminam de forma trágica.

Ainda pequena demonstrou vocação pra escultura, mas era um ofício extremamente masculino e caro. O machismo instaurado naquela época era tal que mulheres não podiam nem mesmo estudar o corpo nu “por razões morais”, por exemplo. Por acreditar em Camille, seu maior incentivador, o pai, muda-se com a família pra Paris, onde ela começa a ter aulas e acesso ao círculo artístico. É nesse contexto que a aluna conhece o instrutor, Auguste Rodin, em 1883. Mais tarde ela passa de assistente a amante e, nesse meio termo, é também musa. Sem dúvida, ela o inspirava. [leia mais]

Embora ele tivesse 45 e ela 19, o estilo dos dois é semelhante em técnica, mas a sensibilidade dela é incrivelmente singular, então Rodin confia a Camille a incumbência de moldar principalmente os pés e as mãos, que era por onde ele expressava as emoções de suas obras. Com o passar do tempo ela se tornou o membro de maior estima da equipe de escultores de Rodin, que ascendia em prestígio na medida em que recebia grandes encomendas do governo francês. Ela, apesar de seu brilhantismo, nem tanto. [leia mais]

Enquanto durou o affair, ambos esculpiram obras paralelas, embebidas na relação carnal intensa. É incrível ver cada escultura dela e relacionar com o nível de envolvimento com Rodin, principalmente quando ele acaba. Camille então entra em sua fase mais criativa, motivada principalmente pela busca de um estilo próprio. Entretanto, a proximidade com Rodin havia fincado raízes fundo demais, no sentido destrutivo e patológico do termo. [leia mais]

Uma obra capaz de fornecer um resumo seria A Idade Madura (L’Age Mûr). Na escultura, uma mulher abandonada pelo amante, imersa em dor, no chão. Ela marca o rompimento definitivo dos dois. [leia mais]

Adoecida emocionalmente pela obcessão, ela chega ao ponto de destruir tudo que cria, isolada em seu pequeno atelier. Sozinha, no escuro e em silêncio, rodeada apenas por blocos quebrados de seus moldes e uma infinidade de gatos, ela havia falhado em conseguir firmar uma identidade, pessoal ou artística, separada de Rodin. Com a mente em frangalhos e relegada pela família, ela acaba em um hospital psiquiátrico, no qual passa 30 anos internada – sem ter voltado a esculpir – e morre aos 79. [leia mais]

Enfim, a entrega e devoção dessa artista esplendorosa a um homem que exercia o papel de mestre, de amante e de pai é que parece lhe aproximar de uma neurose obsessiva. A arte de Camille só se sustentou enquanto pôde estar associada ao escultor mais famoso da França na época, Auguste Rodin. Mas a história foi além, pois a arte de Claudel era para si constitutiva, organizadora, possibilitadora de uma vida em sociedade. Quando lhe tiraram esse caminho, quando não foi mais possível o reconhecimento de sua arte pelas mãos daquele que era para si o mestre, o nomeador, a sua obra – e vida – tornaram-se insuportáveis, pois sem valor. - Uma hipótese de neurose obsessiva em Camille Claudel

Um filme biográfico, que eu preciso ver, foi gravado em 1988.

Aríete

Talvez a razão pela qual Sun Tzu seja um guia para enfrentar uma variedade imensa de situações, desde afetivas a profissionais, seja o fato dele apresentar uma noção sobre o princípio do conflito, baseado no papel da estratégia. Na analogia, nos colocamos nos lugares ora de soldados, ora de generais, lidando com táticas de defesa ou de ataque. Atualmente o sangue é opcional.

Seja como for, trata de organizar elementos para uma situação de embate, e ela pode ser mais ou menos tempestuosa. O mérito que o pensamento militar chinês ganha por essas bandas é que no ramo empresarial, as batalhas estão instaladas no mercado – e estamos todos nesse jogo, sem direito a check points e vidas extras. É onde as metáforas ganham força. Nas empresas, a hierarquia, embora existam algumas flexibilidades, tende a ressaltar a posição de um chefe/rei/general - afinal, é uma figura paternalista que gere e distribui poder e ação.

A introdução foi necessária porque um dia desses, em um business meeting, ouvi um exemplo pouco comum, que me deixou intrigado. Em algum momento falaram do aríete, uma instrumento medieval de guerra usado para derrubar portões e muros de castelos, abrindo caminho. Antes fosse apenas o personagem de He-Man.

Quando o que está em questão é o domínio, terror psicológico sem sadismo é ovomaltive do Bobs. Em alguns casos amarravam os corpos de prisioneiros no aríete e olha, era uma coisa muito tensa. As mulheres ouviam horrorizadas o som agonizante de seus maridos sendo esmagados com o impacto e seu choro tinha um poder doloroso tão penetrante quanto uma bala na nuca. Forte. É um tipo de pressão bem chata pra lidar com.

Só li o “A Arte da Guerra” porque era um adolescente pouco afim de obedecer regras e era um best seller que se encaixava bem na descrição. Além do que, quase não passei da metade, já que a filosofia oriental pregava muito o equilíbrio e meus hormônios discordavam dessa visão de um jeito convincente. Por sorte, existem vias alternativas para aprender a encarar o drama, como fugir dos fortões. Não era covardia: contenção de danos era a estratégia mais adequada.

domingo, 1 de abril de 2012

Gourmet

Na cozinha, posso dizer que sei fazer direito duas coisas. A primeira é brigadeiro, embora a receita mude de tempos em tempos porque adiciono ou mudo um elemento. Em seguida, panquecas. Chego a ser bom no manejo da frigideira, consigo até girar a massa no ar. Se for o caso de me gabar: poucos sabem a respeito e menos ainda chegarão a provar. Proporcional a variedade de pratos é o número de pessoas que me fazer ter ânimo de ligar um fogão. Raridade.

A última vez que fiz panquecas foi pro Machão e uma turma. Uma farra. Lembrei disso hoje a noite, juntando a massa, os ovos e o leite na batedeira (quase esqueci do sal). É piegas dizer, mas sério, sinto muito falta dele, das visitas de tarde, das conversas e das gordices. Penso que ele era uma cola entre vários núcleos de pessoas. Fazendo a ponte, mantendo próximo. Claro, a gente acha outras formas de manter a conexão, mas nem chega perto do que ele era capaz. Tem coisas insubstituíveis, né.

Já brigadeiro é um pouco mais complicado e meio que me proibi de fazer. Nada tem a ver com calorias, não ligo pra isso. É um lance mimimi. Envolve a falta de alguns ingredientes afetivos. Espero superar a médio prazo. Mas sabe, de uma forma geral, levar pessoas para preparar alguma coisa na cozinha é delicioso, mesmo que o resultado disso seja uma gororoba salgada e intragável. Melhor ainda quando não é você quem lava a louça.