quinta-feira, 28 de abril de 2011

Cronograma e desespero

Minha orientadora do artigo me chamou de verborrágico. É um adjetivo para desqualificar minhas palavras, dizer que tenho apenas forma (frágil) e não conteúdo (sólido). Uso as palavras de maneira ambígua. Disse que por eu não ter aparecido na última reunião, não tenho me dedicado de verdade. Ela disse, resumindo, duvidar do que eu realmente quero. Tenho até dia 20 de maio pra entregar tudo, depois disso nada mais importa. Não foi uma conversa rude - ela nunca me prometeu carinho.

Eu mandei fazer uma bancada enorme no meu quarto, que toma toda a parede, coloquei também uma janela nova, uma estante estranha e uns nichos aleatoriamente dispostos. Está tudo aqui, com um pouco de poeira, mas ok sabe. O objetivo disso era me organizar materialmente. O resultado atual é uma pilha de livros e folhas de papel, manchas de umidade e um lugar vazio onde eu deveria estar sentado, transformando páginas vazias do Word em, rs, ciência (formatada em Arial 12, por sorte minha fonte favorita). O feng shui deve explicar, eu sei que deve. As linhas de energia não estão fluindo e tenho certeza que debaixo do assoalho tem uma bolha de chi negativo prestes a explodir.

Algumas coisas me ganham fácil como Halls VitC e Brazilian Coffe. Me acalmam e me preenchem de açúcar. Tenho um mantimento disso em uma gaveta junto com pastas e mais papéis bagunçados. Mas dessa vez acho que eles não vão ser suficientes e não tenho nada em vista para substituí-los. Talvez alguma dose de exílio funcione para me livrar do vício e da culpa.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Delírio de Referência

Um amigo me explicou recentemente, em termos não vulgares, porque algumas pessoas sentem que todo o mal produzido no mundo é feito para destruí-las ou porque algumas pessoas acham que tudo que não se referem a elas significam nada. São idéias deliróides (um adjetivo lindo e sutil). Eu faço absoluta questão de explicar a idéia com um desenho:



Certo, não tenho clareza da noção psicológica, mas a discussão não será necessária aqui (nos comentários, quem sabe, mesmo sendo pouco provavel). O que eu quero falar é dessa compulsividade de pensarmos em nós mesmos. Inclusive não me tiro das estatísticas, afinal esse blog tem muita masturbação. Daí lembrei de um ensaio do Oscar Wilde sobre individualismo.

*pausa diletante para molhar a pena no tinteiro. rs*

Ele diz que melhor seria se fossemos todos individualistas (e lá ele detalha melhor como isso funcionaria), não no sentido estreito e imediato, mas se reportando à necessidade de termos um tempo para nos lapidarmos - lembrando que o cara cultivava uma louca adoração pelo ‘belo’- alcançando valores ditos elevados. Eu sei, são aspirações eruditas näif, o que é bem a cara do autor. Lógico que a perspectiva atual do individualismo se distancia E MUITO das pretensas idéias de Wilde. Eu, você e todo mundo estamos ai pra provar.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Adele

"Minha música não é sobre peitos e bundas. Não faço música para os olhos. Faço para se ouvir."

Provavelmente eu não seja capaz de escrever esse post tal qual imagino na minha cabeça, mas vale a tentativa. Nem de longe é uma crítica. Soa mais como um depoimento. É sobre uma presença, uma aura de blues que me cerca desde o meio de fevereiro e essa semana estampa a capa da Rolling Stones.


Adele tem 21 anos, um vozeirão fascinante e consegue me traduzir.


O nome dos álbuns (19 e 21) acompanham as experiências da história complexa de relacionamentos da cantora até o momento - representam, segundo ela em seu blog, uma foto, onde você pode ver as mudanças através do tempo e no que você se transformou. Sim, atualmente ela também passa por uma crise dos 20, o subtítulo de todo meu drama. É um tema universal.

O Alexandre Inagaki do Pensar Enlouquece, Pense Nisso caminhou pelos sentimentos de cada faixa e me contempla no resultado. Nessa entrevista, feita à revista ela própria explica o percurso de sua inspiração e como adaptou isso ao seu trabalho. Viver de música é um desafio olímpico. O pódium não cabe muita gente, como vocês podem perceber. Portanto não se trata apenas de despejar #mimimi em uma balada de violão e deixar o setor de publicidade cuidar do resto. Isso é marketing, apenas. Entretanto é como funciona mainstream.

Embora, e nao dá pra fugir, ainda seja um produto de consumo, Adele foge dos padrões nesse aspecto. Está fora do peso, não rebola nem tenta seduzir seus fãs de outra maneira se não com a voz - nem mesmo possui um estilo visual de provocação estética, ainda que cativante. É interessante notar, vendo a entrevista: no tempo livre, fora do estúdio, na sala ou no jardim, ela fuma tranquila, faz mil gordices, se veste desleixada, solta o cabelo e ri de.li.ci.o.sa.men.te, como quem não se leva tão a sério. Preciso dar um abraço-felícia nessa mulher!

Estancando no cruzamento

Tweety: instrutor de baliza

Mais uma vez tenho que adiar um passo importante. Nesse caso é a carteira de habilitação. Todos aqui em casa já o fizeram. Estão nesse momento, inclusive, me causando um certo desconforto. Sem autonomia locomotiva, sou sempre o carona, o passageiro. Hoje fui em algumas auto-escolas analisar o plano de cada uma. Quero tirar a categoria AB (carro e moto – ninguém me segura).

Por sorte moro perto de duas dúzias de auto-escolas. Me aconselharam a não me matricular nas grandes, porque lotadas e atrasam tudo. Dei preferência às menores. Pesquisei os valores na Padrão, Transpiauí, F. Saraiva, Servenplac, Taurus e na, minha favorita, a auto-escola Piu Piu (♥). Os preços praticados chegam a variar R$200,00 entre elas: a mair barata R$550,00 e a mais cara R$750,00.

Nao estão incluídos no cálculo aí de cima a taxa no Detran (R$ 172,53) e os exames médico (R$50,00) + psicotécnico (R$55,00) - são valores fixos . Sim, os maiores do país. Por conta disso o órgão, no estado, consegue arrecadar mais de R$ 70 milhões por ano.

Mais do que nunca preciso dirigir. Fato. Estou chegando aí na terceira idade, tenho que me poupar. Mas, claro, não vai ser assim tão fácil. Só daqui a um mês vou poder começar, por causa de umas provas+monografia. Quem está pisando fundo no freio da minha vida?

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Marcha Fúnebre

Não existe assunto algum em que os gregos não possam dar um pitaco.

Essa amiga minha faz psicologia. Ela me explicou um termo que me segue ate hoje. Ela trabalhou 10 anos em uma empresa do ramo de saúde aqui em Teresina, era bem sucedida e tinha carreira. Teve uma epifania e largou tudo, acho. Daí passou um tempo de molho, em casa, porque, segundo ela, era a perda de um relacionamento sólido – semelhante a um casamento. Por um tempo a rotina faria mesmo falta.

Então ela começou a cursar Psicologia e encontrou o lugar dela no mundo - já tá se formando. Participamos no início do ano do Projeto RONDON, essa aventura louca, mas imprescindível. Na ida, ainda no avião, conhecemos um professor de biologia, sentado na poltrona da frente. Foi uma conversa interdisciplinar entre um jornalista, uma psicóloga, uma fisioterapeuta e o biólogo que durou todo o vôo. Foi quando entendi o que significa “elaborar o luto”.

É um período de superação. Primeiro você se sente o Atlas, depois desaba chorando, fica deitado achando que vai durar pra sempre, mas daí você acaba se reerguendo aos poucos e , enfim, ta lá de pé e vivão again. Lógico que as etapas não são exatamente essas, mas é como eu consigo explicar no momento (mal feat. porcamente).

Uma separação, uma perda, um distanciamento, e não só a morte, exigem a elaboração do luto. E chegamos ao ponto. Nem sempre a gente se cura. Não praticamos o desapego pleno. Achamos muita coisa fundamental, sem as quais não podemos existir, quando a única cola entre nós e as coisas (ou outras pessoas) é uma dependência que nos conformamos em não lutar contra.

sábado, 9 de abril de 2011

Professor Murder



Essa banda me traduz. Eu, preso em 2008, pulando com as batidas vibrantes de energia (hahahaha q) do Rides the Subway, EP favorito deles. Ouvir Professor Murder me tira de quase todo verão da depressão.

Red Carpet


Eles tem uma câmera e vão usá-la. Entregam um cartãozinho e disparam o flash. No dia seguinte a sua foto com uma marca d’água pouco discreta deve estampar um site de gente “jovem, bonita e alto astral”. Prefiro deixar colunismo social pra quem sabe fazer elogios. Não sei lidar.

Momento científico. Em 2009 eu assisti uma apresentação sobre o corpo representado em jornais (de João Pessoa). Uma distinção bem explícita, feita pela pesquisa, é entre o corpo apresentado nas colunas sociais e nas editorias de cidade/policial. Enquanto um é o corpo cultuado, valorizado e como “instrumento de consumo”; o outro é o corpo mutilado, violentado, imperfeito, onde as pessoas ali mostradas perdem inclusive sua identidade. Desculpem qualquer pedantismo.

Meu corpo não serve. Mesmo fora do jornalismo diário, essas noções valem, em situações de maior ou menor ênfase. É o que garante, por exemplo, o plantão dos fotógrafos de balada. Ontem uma garota veio com aquele olhar de quem vai seqüestrar seus filhos, cheia de pose, maquiagem e rá!, com sua câmera. Quando ela mirou em minha direção, fiz logo uma cara estúpida de retardado. Não sei se funcionou, talvez a essa altura eu já tenha “caído na net”.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Fórmulas

A maioria das pessoas diz ser fácil conviver com elas, que existe uma lista de regrinhas básicas bem simples. Defesa em causa própria. Eu acho minhas amizades extremamente complicadas. Pessoas tensas até o âmago. Daí acredito que faço parte dessa turma justamente por esse elo de neuroses. Distorcer conceitos é um talento meu.

Nossa casa tem um cheiro que, por costume, não conseguimos mais sentir. Talvez a Aromaterapia explique. Quando chegamos em algum outro lugar, como a casa de um amigo, sentimos o cheiro do ambiente. O mesmo acontece com minha percepção das pessoas. A proximidade me impede de ver o conjunto.

Aprendemos as coisas por contágio, como esponjas. Ao longo do tempo, com sorte, vem alguma autonomia. O problema é: o que eu aprendi não pode mais ser praticado, são lições completamente falidas. Sei, não existe tal manual na prateleira de ninguém, mas podiam ter deixado ao menos um bilhete na geladeira dizendo onde fica a saída.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

CAPS ad, um estilo de vida.



Você pode se tornar imóvel. Você pode ficar calada. Assim, pelo menos, você pode se fechar, se trancar. Assim, não tem que interpretar papéis, fazer caras ou falsos gestos. Você acha, mas veja, a realidade não coopera. Seu esconderijo não é à prova. A vida entra em tudo. Você é forçada a reagir. Ninguém pergunta se é real ou irreal, se é verdade ou mentira. Eu entendo você ficar calada. Você colocou essa falta de vontade num sistema fantástico. Acho que você deveria manter esse papel até que não seja mais interessante, aí você pode deixá-lo. Assim, pouco a pouco, você deixa todos os outros papéis.


- Persona, Ingmar Bergman

Marco Zero

Família toda no parque de diversões. Eu devia ter uns 10 anos, logo, não podia andar em nenhum brinquedo que um garoto gostaria de. Consumido pelo desespero de tão poucas possibilidades, meus pais me jogam num trailer com outra trupe de crianças barulhentas. Era década de 90, não os culpem. Essa é a raiz de boa parte dos meus pesadelos. É meu trauma primordial.

Uma vez dentro do trailer as luzes vão diminuindo. O locutor anuncia uma jaula no lado oposto. Desce a cortina. Revela-se uma mulher seminua, magérrima e transtornada dentro de uma jaula. A voz continua. “A mulher-gorila vai se transformar diante dos seus olhos”. Começa uma coisa inconcebível: cresce um absurdo de pelos na moça. A essa altura todo mundo já se encolhia no extremo canto, buscando um lugar seguro.

Antes de perder o controle sobre minha bexiga, fiz a coisa mais acertada de toda minha vida: pedi pra sair. O porteiro tentou me impedir, mas não tinha argumento algum contra minha palidez. Resultado: uma infância em ruínas. Hoje eu sei como funciona o truque, o jogo de espelhos, o alçapão, etc, etc. Superei, ok, mas sinto que naquele momento foi, definitivamente, dada a largada para uma vida loser e covarde. Obrigado, Monga.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Mea Culpa

Minha vida se resume a uma sequencia de gordices. É abril e minha monografia me espera zangadíssima na sala enquanto, não sei pensando o que da vida, ainda sigo uma vida de muita preguiça e orgia alimentar. O tema que escolhi para o trabalho de conclusão de curso não é tão descolê-pop-bacaninha, mas é o caminho que minha graduação tomou.

Vou falar sobre políticas públicas em comunicação, ou seja, sobre o que vivi na maior parte desses 4 anos de forma militante e - aguento a crítica - insuficientemente politizada. Esse é provavelmente um período de redenção por todos os textos que eu não li, as reuniões que faltei e uma enorme lista de coisas que “deveriam” tem acontecido. Tomei.

domingo, 3 de abril de 2011

Palavras-chave

Essa postagem era pra ser taggeada como “Diversão Antropológica”, mas por ser tão comprometedora, vou arriscar um verdadeiro exercício de sutileza. A situação é tal que não posso falar diretamente das coisas. Felizmente não fiz promessa alguma sobre manter a dignidade alheia intacta, ou preservar religiosamente minha própria índole, portanto, escrevo sem culpa – não sem receio. Certo, estão esclarecidos. Antes, acho interessante expor três conceitos:

*Intimidade, íntimo. (latim intimus, -a, um) adj:
1. Que está muito dentro; muito interno. = intrínseco, profundo ≠ ligeiro, superficial, vago
;
2. Que existe no ânimo ou no coração. = entranhável, imo, profundo ≠ superficial
;
3. Muito cordial, tranqüilo ou aconchegante. = acolhedor ≠ frio, neutro
;
4. Que goza de intimidade. ≠ estranho
;5. Que está muito próximo de ou tem relações estreitas com. = familiar ≠ estranho;
6. Que diz respeito à própria pessoa ou é confidencial. = particular, pessoal, privado ≠ alheio;
7. Que envolve contactos sensuais ou sexuais;
8. Relativo a zona genital. s. m.;
9. A parte mais interna. = âmago, imo ≠ exterior, aparência;
10. Pessoa de intimidade. = amigo ≠ desconhecido, estranho.


*Constrangimento. s. m:
1. Acto!Ato de constranger;
2. Violência que tira liberdade de acção!ação;
3. Acanhamento, embaraço;
constranger (ê) - v. tr.
1. Apertar, impedir os movimentos de;
2. Fig. Tolher o meio de acção!ação; coagir; forçar; obrigar pela força, violar;


*Desastre. s. m.:
1. Desgraça imprevista e funesta;

2. Revés; infortúnio;

3. Catástrofe;

4. Sinistro;


*Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa Priberam – e de acordo com o novo (#seulindo) acordo ortográfico.


Eu pensava que sentir vergonha alheia era um ato de compaixão. Talvez uma mistura de pena, amor e às vezes até raiva. Quem sabe uma vontade de abraçar, levar pra casa e dizer “calma, tudo vai ficar bem agora”. Pois bem, aqui vem a contradição: se alguém está te causando vergonha por empatia, o bom senso (tão divino quanto o livre arbítrio) apita louco “não tente nada p.a.r.e.c.i.d.o”. Para o bem ou para o mal, às vezes acontece justamente o contráreo. Seguimos a trilha confusa e escolhemos o lugar errado. Alguns podem dizer que é imprudente ou perigoso, mas eu vou chamar aqui de aventura. Nota: estou sento sutil.

Os personagens dessa história são figuras clássicas do Gira Livre como a Motorista da Rodada, a Menina que trabalha lá em casa, o Ted Bear e a Esquerda Festiva. Pessoas sem ficha criminal, mas entregues de corpo e alma ao deboche. Hoje participaram também o Bonilton e o Fantasma da Branca de Neve. Eu sei, rola o maior bullyng aqui.

O que aconteceu com a gente foi muito raro em termos de absurdo e ridicularidade. Provamos o amargo da humilhação e da exposição pública. Em um mundo de câmeras de vigilância e acesso gratuito à internet, nossas vidas correm perigo. Os capangas da moral estão soltos e armados. É o nosso “Saia à rua, Vossa Excelência”. Finalizo aqui com um ‘boa sorte’, meio que segurando o riso.