quinta-feira, 7 de abril de 2011

Marco Zero

Família toda no parque de diversões. Eu devia ter uns 10 anos, logo, não podia andar em nenhum brinquedo que um garoto gostaria de. Consumido pelo desespero de tão poucas possibilidades, meus pais me jogam num trailer com outra trupe de crianças barulhentas. Era década de 90, não os culpem. Essa é a raiz de boa parte dos meus pesadelos. É meu trauma primordial.

Uma vez dentro do trailer as luzes vão diminuindo. O locutor anuncia uma jaula no lado oposto. Desce a cortina. Revela-se uma mulher seminua, magérrima e transtornada dentro de uma jaula. A voz continua. “A mulher-gorila vai se transformar diante dos seus olhos”. Começa uma coisa inconcebível: cresce um absurdo de pelos na moça. A essa altura todo mundo já se encolhia no extremo canto, buscando um lugar seguro.

Antes de perder o controle sobre minha bexiga, fiz a coisa mais acertada de toda minha vida: pedi pra sair. O porteiro tentou me impedir, mas não tinha argumento algum contra minha palidez. Resultado: uma infância em ruínas. Hoje eu sei como funciona o truque, o jogo de espelhos, o alçapão, etc, etc. Superei, ok, mas sinto que naquele momento foi, definitivamente, dada a largada para uma vida loser e covarde. Obrigado, Monga.

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