quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A Maçã

Semana passada a Casa da Cultura realizou a primeira Semana de Cinema Iraniano e como fazia muito tempo que não ia lá, aproveitei a oportunidade. Sai de casa no finzinho da tarde com Najila e, como previra o GMaps, foram uns 40 minutos de caminhada – atividade que gostaria que fosse frequente na minha rotina. O filme que assistimos foi o híbrido de ficção e documentário “A Maçã” (1998) e se for o caso de indicar uma resenha decente escolho a da RUA.

Antes de falar sobre o filme cabe um parágrafo sobre a diretora, Samira Makhmalbaf, que na época do lançamento tinha 17 anos, o que a tornou a mais nova da categoria no Festival de Cannes de 98. Em dois anos, “A Maçã’ foi exibida em 100 festivais internacionais e em mais de 30 países. A família inteira dela se dedica ao cinema, a começar pelo pai, Mohsen Makhmalbaaf, chegando ao ponto de já terem vendido a casa para custeio de algumas produções (reavendo-a em seguida).

A história do filme parte de um fato: um senhor e sua esposa cega mantém as duas filhas de 11 anos cerradas em casa desde que elas nasceram.Os vizinhos informaram à assistência social e o caso foi investigado. Os exames médicos das garotas revelaram a perturbadora condição: são fisicamente saudáveis, mas seriamente atrofiadas física e mentalmente (não conseguem andar ou falar direito, por exemplo). A parte mais importante: Samira começou as filmagens apenas 2 dias depois que o caso ganhou as manchetes nacionais. Mais importante ainda: os atores são justamente os reais envolvidos, representado cada um a si mesmo. Em 85 minutos, é uma história crua e lírica do Irã sobre si mesmo

“A Maçã” é além de um manifesto deslumbrante sobre liberdade, um imenso diálogo de contrastes com o ocidente. O fenótipo iraniano é exótico: a cor dos olhos, da pele, a textura do cabelo, o formato do rosto; a língua persa, principalmente a escrita, são totalmente incompreensíveis pra mim, o que não diminui o impacto, nem a imersão; a cultura do tabu, onde a mulher cobre seu rosto, braços e pernas acabando por fim enterrada sob aqueles panos imensos enquanto os homens se vestem do discurso sagrado, no qual tudo se justifica.

Vemos em closes desconcertantes a mulher subjugada  o extremismo religioso, a inoperância do papel social do Estado e quando enfim nos damos conta, estamos encarcerados juntamente com aquelas duas meninas. Embora seja óbvio a responsabilidade do pai sobre a situação, a diretora coloca a coisa toda em perspectiva. Em entrevista à Folha de São Paulo em 1998, Samira responde: “Não sou juíza, e cinema não é uma corte. Para mim, cinema é um espelho que você coloca na frente da sociedade [...] algumas pessoas podem mudar e se corrigir quando virem seu reflexo no espelho”. 

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