Semana passada a Casa da Cultura realizou a primeira Semana de Cinema Iraniano e como fazia muito tempo
que não ia lá, aproveitei a oportunidade. Sai de casa no finzinho da tarde com
Najila e, como previra o GMaps, foram uns 40 minutos de caminhada –
atividade que gostaria que fosse frequente na minha rotina. O filme que
assistimos foi o híbrido de ficção e documentário “A Maçã” (1998) e se for o caso
de indicar uma resenha decente escolho a da RUA.
Antes de falar sobre o filme
cabe um parágrafo sobre a diretora, Samira Makhmalbaf, que na época do
lançamento tinha 17 anos, o que a tornou a mais nova da categoria no Festival
de Cannes de 98. Em dois anos, “A Maçã’ foi exibida em 100 festivais
internacionais e em mais de 30 países. A família inteira dela se dedica ao cinema,
a começar pelo pai, Mohsen Makhmalbaaf, chegando ao
ponto de já terem vendido a casa para custeio de algumas produções (reavendo-a em seguida).
A
história do filme parte de um fato: um senhor e sua esposa cega mantém as duas
filhas de 11 anos cerradas em casa desde que elas nasceram.Os vizinhos
informaram à assistência social e o caso foi investigado. Os exames médicos das
garotas revelaram a perturbadora condição: são fisicamente saudáveis, mas
seriamente atrofiadas física e mentalmente (não conseguem andar ou falar
direito, por exemplo). A parte mais importante: Samira começou as filmagens
apenas 2 dias depois que o caso ganhou as manchetes nacionais. Mais importante
ainda: os atores são justamente os reais envolvidos, representado cada um a si
mesmo. Em 85 minutos, é uma história crua e lírica do Irã sobre si mesmo.
“A Maçã” é além de um manifesto deslumbrante sobre liberdade, um imenso diálogo de contrastes com o ocidente. O fenótipo
iraniano é exótico: a cor dos olhos, da pele, a textura do cabelo, o formato do
rosto; a língua persa, principalmente a escrita, são totalmente
incompreensíveis pra mim, o que não diminui o impacto, nem a imersão; a cultura
do tabu, onde a mulher cobre seu rosto, braços e pernas acabando por fim
enterrada sob aqueles panos imensos enquanto os homens se vestem do discurso
sagrado, no qual tudo se justifica.
Vemos
em closes desconcertantes a mulher subjugada o extremismo religioso, a inoperância
do papel social do Estado e quando enfim nos damos conta, estamos encarcerados
juntamente com aquelas duas meninas. Embora seja óbvio a responsabilidade do
pai sobre a situação, a diretora coloca a coisa toda em perspectiva. Em
entrevista à Folha de São Paulo em 1998, Samira responde: “Não sou juíza, e
cinema não é uma corte. Para mim, cinema é um espelho que você coloca na frente
da sociedade [...] algumas pessoas podem mudar e se corrigir quando virem seu
reflexo no espelho”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário