Quando a gente chegava na entrada, entregavam o óculos 3D (ao todo, foram distribuídos 15 mil). Pensei que, como geralmente acontece, não seria um recurso bem explorado e deixei guardado no bolso. Me enganei, sou obrigado a admitir, mas só perceberia isso depois da (ótima) apresentação de James Blake. Engraçado como aquela cena se repetiria: um cara em meio a uma pickup de botões, fios e luzes. Não haviam rockstars – era um festival sem guitarras (com algumas raras exceções).
Blake
A tecnologia aplicada tornou tudo muito pouco diferente de mágica. Eles nos levaram pra uma realidade praticamente sem fronteiras – que é o conceito do festival inteiro: música avançada e novas mídias artísticas.
O grupo alemão mudou: apenas um integrante original permanece. O contexto em que o Kraftwerk surgiu, entretanto, ainda está presente em sua obra. O pós-guerra e o mundo bipolarizado assombrado pelo terror da hecatombe nuclear parecem estranhamente recentes quando eles sintetizam Sellafield. Os números de Computer World são cruéis e o final da equação “Business, Numbers, Money, People” revela onde estamos no rank.
As coisas mudaram pra valer, afinal. Se a Alemanha dividida da década de 80 trazia em seu cabeçalho o socialismo e, portanto, a preocupação extrema com o ser humano, é ela hoje quem gere a crise européia – com base em medidas de austeridade questionáveis. A Grécia, emblema desse caos, sofre não por causa da relação homem-homem, mas pelo impacto de euros que nem sequer existem (são valores virtuais). E é essa a natureza da crise monetária mundial (ela é tanto de mercado quanto de governabilidade). É a vitória da máquina que Kraftwerk anunciam em The Man-Machine. E nós somos os robôs, eles já haviam deixado claro.
Um passeio pela superfície do planeta, pelos prédios da cidade, pelos números, pela França (de bicicleta) e pela música. E como eu estava precisando daquela Autobhan.

Little Dragon
Na acústica perfeita do teatro do Sonar Hall, recobro a vitalidade com Little Dragon, uma banda (sem guitarras) sueca. A vocalista (função raramente presente nesse mundo eletrônico) é extremamente carismática e suas peculiaridades são bem vindas, principalmente em São Paulo: Nagano é metade nipônica, metade sueca e tem uma bunda de proporções latinas. Satisfeito com Little Man e Ritual Union, sentei um tempinho pra desamarrar os cadarços. O show deles serviu pra me reavivar e seguir pelos outros palcos, mas sem interesse específico.

Skream ft. Sgt. Pokes. Agressivos.



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