quarta-feira, 16 de maio de 2012

Sonar dia 11

Quando a gente chegava na entrada, entregavam o óculos 3D (ao todo, foram distribuídos 15 mil). Pensei que, como geralmente acontece, não seria um recurso bem explorado e deixei guardado no bolso. Me enganei, sou obrigado a admitir, mas só perceberia isso depois da (ótima) apresentação de James Blake. Engraçado como aquela cena se repetiria: um cara em meio a uma pickup de botões, fios e luzes. Não haviam rockstars – era um festival sem guitarras (com algumas raras exceções).


Blake

Quando os primeiros acordes de The Robots ecoaram no galpão do Sonar Club, anunciando os quatro senhores do Kraftwerk, a projeção 3D foi disparada. A simplicidade dos pais da música eletrônica como a conhecemos foi uma aula propedêutica. Os princípios, eles estavam todos lá. O show no Sonar foi o compacto de uma retrospectiva de 8 dias de toda a produção do quarteto, no MoMa, realizada em abril desse ano. 


A tecnologia aplicada tornou tudo muito pouco diferente de mágica. Eles nos levaram pra uma realidade praticamente sem fronteiras – que é o conceito do festival inteiro: música avançada e novas mídias artísticas. 

O grupo alemão mudou: apenas um integrante original permanece. O contexto em que o Kraftwerk surgiu, entretanto, ainda está presente em sua obra. O pós-guerra e o mundo bipolarizado assombrado pelo terror da hecatombe nuclear parecem estranhamente recentes quando eles sintetizam Sellafield. Os números de Computer World são cruéis e o final da equação “Business, Numbers, Money, People” revela onde estamos no rank.



As coisas mudaram pra valer, afinal. Se a Alemanha dividida da década de 80 trazia em seu cabeçalho o socialismo e, portanto, a preocupação extrema com o ser humano, é ela hoje quem gere a crise européia – com base em medidas de austeridade questionáveis. A Grécia, emblema desse caos, sofre não por causa da relação homem-homem, mas pelo impacto de euros que nem sequer existem (são valores virtuais). E é essa a natureza da crise monetária mundial (ela é tanto de mercado quanto de governabilidade). É a vitória da máquina que Kraftwerk anunciam em The Man-Machine. E nós somos os robôs, eles já haviam deixado claro.

Um passeio pela superfície do planeta, pelos prédios da cidade, pelos números, pela França (de bicicleta) e pela música. E como eu estava precisando daquela Autobhan. 


Pude quase tocar tudo. Satélites passaram dentro do corpo de milhares de espectadores, na multidão. Um trem atravessa o galpão, “atropelando” os nerds desengonçados que dançavam de um jeito muito divertido e no mínimo autêntico. Notas musicais chovem e a música não pode parar. Quase sem fôlego, ouço as últimas ondas. Tiro o óculos 3D e, exausto, precisei descansar por algum tempo. Algumas pessoas não entenderam e mantiveram o adereço durante toda a madrugada.

Little Dragon

Na acústica perfeita do teatro do Sonar Hall, recobro a vitalidade com Little Dragon, uma banda (sem guitarras) sueca. A vocalista (função raramente presente nesse mundo eletrônico) é extremamente carismática e suas peculiaridades são bem vindas, principalmente em São Paulo: Nagano é metade nipônica, metade sueca e tem uma bunda de proporções latinas. Satisfeito com Little Man e Ritual Union, sentei um tempinho pra desamarrar os cadarços.  O show deles serviu pra me reavivar e seguir pelos outros palcos, mas sem interesse específico. 

Skream ft. Sgt. Pokes. Agressivos.

O Sonar Village era o lugar dos baladeiros profissionais. Infelizmente, nenhum deles me ofereceu drogas, mas, por sorte a atmosfera era lisérgica o suficiente e fiquei legally high. De volta ao Club, Chromeo é uma das últimas coisas que lembro do primeiro dia. Com a cabeça inundando de sons artificiais que só existiram ali, vou pro hotel digerir todo aquele fractal audiovisual.

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