sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Verbalizar

Tô mudado, viu. Antes nem dizia nada, agora sou eu quem puxo assunto com os taxistas. Pergunto, insisto, consigo manter o assunto por um tempão. Triste, mas sigo no drama. Acho importante falar, sabe, pôr em palavras. Admiro quem diz o que pensa, os que explicam, os que contam detalhes. Se a melhor forma de visualizar um projeto arquitetônico é em uma maquete, com idéias é semelhante. Tenho sentido a necessidade de afixá-las, vê-las expostas. São minhas pinturas rupestres 2.0, porque precisamos deixar alguma coisa.
- A única fronteira que sobrou para nós é o mundo dos inatingíveis - ela dizia.- Todo o resto já foi amarrado. Enjaulado dentro de uma quantidade excessiva de leis.
Com inatingíveis ela queria dizer a internet, filmes, música, histórias, arte, boatos, programas de computador, tudo que não é real. Realidades virtuais. Troços de faz de conta. A cultura. O irreal é mais poderoso que o real. Pois nada é tão perfeito quanto você imagina que é. Pois é apenas o inatingível que perdura, ou seja, idéias, conceitos, crenças e fantasias. Rocha se esfarela. Madeira apodrece. Gente.. bom, gente morre. Mas coisas frágeis como pensamentos, sonhos e lendas podem permanecer pra sempre.
Forte. É uma passagem de No Sufoco. Logo no início do livro - e não me importo muito em contar, porque se alguém for realmente ler também não vai – o protagonista, Vitor, fala da mãe, uma ativista política radical, sobre uma vez que ela o levou para uma caverna e o deixou imóvel, iluminado apenas pela luz dos faróis. Então ela usou um pedaço de carvão e desenhou a sombra dele na parede. Rabiscar a parede para registrar o crescimento parece coisa de gente vazia, depois dessa metáfora.

A leitura desse livro, pra mim, foi uma experiência interessante. Não fui o primeiro a ler. Antes disso emprestei para quatro pessoas e pedi que rabiscassem nas páginas o que achassem interessante, de uma forma diferente da outra pessoa. A Nádia, por exemplo, deixou borboletas ao lado das citações favoritas dela. Cada um deixou também uma dedicatória. Quando finalmente fui de página em página, descobrindo a história, foi sensacional sentir a relação dele com seus leitores anteriores. É algo que nunca mais repeti, não seria a mesma coisa. Seria apenas emulação. Pra ser fiel ao espírito do livro, masturbação diletante.

-Talvez você consiga mudar a maneira de pensar das pessoas. A maneira como elas se vêem. A maneira como vêem o mundo. Se fizer isso, você pode mudar a maneira como as pessoas vivem suas vidas. E essa é a única coisa duradoura que você pode criar. Além do mais, chegará um momento em que suas lembranças, histórias e aventuras serão a única coisas que restarão a você. - Minha meta é ser um motor de entusiasmo na vida das pessoas.
De certa forma a minha também, confesso. Olha, na real, quero ser cognitivamente consumido, sem bancar o espertão pretensioso. Não estou falando de liderar opiniões, ditar moda ou de cultivar seguidores, mas de ser lido e interpretado. O resultado disso não depende totalmente de mim porque posso dizer uma coisa e interpretarem outra, normal. Por sorte, Montaigne, em seu blog do além, me alertou para essa vaidade tola do estrelato online. Einstein endossa a crítica. Tolstoy, por sua vez, descobriu a receita e sou bastante grato.

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