terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Diversão antropológica: Rehab

A partir de agora a única coisa perigosa que vou fazer na vida vai ser beber Nescau sem agitar antes. Deve ser injusto falar em cansaço aos 21, então vou tentar outros adjetivos. Achei que ficaria mesmo em casa durante o carnaval, nem fiz planos. O que torna tudo mais estranho é sair sábado à tarde e voltar segunda de noitinha, sem avisar. Ao menos não cheguei em casa e me deparei com um post it no espelho do banheiro com dois (severos haha) pontos de exclamação no final de "obrigado pela consideração", como aconteceu com um de nós. Os pais de hoje até tentam pôr medo, mas são bem compreensíveis com a fossa da gente. De loser a afetivamente frustrado todo mundo tem sua contribuição a dar.

A idéia inicial era ir pra algum carnaval de rua, mas eu estava (estou) com uma tosse alérgica muito estranha, talvez terminal. No fim, o cenário de toda uma saga meio Kids/Ken Park (Larry Clark) foi um apartamento bagunçado do qual só usamos dois cômodos: a sala e a cozinha. Só precisávamos de uma posição confortável e um assunto. Nós, que nunca tinha discutido traumas de infância com ninguém, começamos a desbloquear memórias. Regressão é uma coisa muito forte pra acontecer por ai, fora dos consultórios. Lembrei de todos os meus animais de estimação (mais de 10 no total), o nome de todos meus vizinhos e colegas de classe da infância. Parece um bando de fantasmas agora porque nunca mais os vi. E acho que isso vai continuar acontecendo. Deve ser normal.

Depois que você percebe que pode sair de casa assim, abandonando o bom senso, é difícil restabelecer o vínculo com a família. Minha mãe deve ter me ligado duas vezes, pra saber da minha integridade física, mas eu estava no meio de um filme/série velho e absurdo com umas 6h de duração (Angels in America) que me deixou totalmente sem energia. Respondi qualquer coisa que a deixou mais ok como “trouxe meus remédios, a tosse está melhor, ligo depois”. Ao todo eram 3 xaropes e 2 comprimidos, nem sei mais pra que serve cada um.

Em algum momento a gente precisou voltar pra casa. Talvez a necessidade de garantir um lar por mais alguns meses falou mais alto. Cheguei em casa e todo mundo estava dormindo. Carnaval estranho. Segui o exemplo. O filho pródigo, em seu quarto, convalescente sob a luz do fim do dia, a luz mais depressiva que existe.

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