Tudo conseqüência de um raro momento de drama. Estava lá no trabalho, olhando as paredes da sala, uma página do Word preenchida com alguma coisa envolvendo professores em capacitação, quando abro uma nova aba do Mozilla, digito algo sobre educação no Google e me direcionam pro site do MEC. No canto, um banner. Inscrições abertas: ENEM. “Hm, tranqüilo, estou aqui fazendo nada e acho que vou estar nessa mesma situação dias 6 e 7 de novembro. Do jeito que o SISU é, posso passar pra qualquer coisa”. Não me arrependo nem me orgulho. Fiz o que tinha que fazer. rs
Vestibular é uma das coisas que mais odeio na vida. Não é trauma. Sou uma pessoa racional e tal, mas essa paranóia educacional me trinca os dentes. A parte que mais me faz sentir raiva é quando você, pela primeira vez, fica cara a cara com um camalhaço de páginas com letrinhas miúdas – as questões que vão definir sua vida – e se sente pressionado a saber as respostas. Pressão da família, dos amigos, da sua tão almejada “independência”. r$. É, a coisa toda é assustadora, parabéns aos adolescentes que conseguem lidar. Inteligência emocional, desculpe se um dia falhei contigo.
Entretanto foi muito diferente sábado e domingo passados. Eu tinha necessidade nenhuma de fazer sequer um ponto naquelas provas. Minha íntima vingança. Estava lá, entre a plebe púbere, disfarçado de teen. Observei a tensão no rosto deles e me senti cúmplice. “There there, eu sei, eu sei, vai passar. Pode chorar, tudo bem”. Mais tocante que isso são os pais e mães que acompanham os filhos - não apenas desejam boa sorte como fazem massagem e recitam palavras de sabedoria dignas de correntes de e-mail. Eu estava de ressaca e minha mãe mal disse ‘bom dia’ pra mim de manhã.
Procuro minha sala em meio à multidão. “Meus concorrentes”, encaro-os de olhos cerrados. Encontro finalmente. Olha pra fiscal. Tipo, eu deveria estar fiscalizando e não fazendo a prova. Ela recebeu pra estar ali e eu, Jesus, paguei. Triste constatação. Na sala tinha de tudo, de gatas-ceras-show-100%-S2 a vizual-key-Elke-Maravilha-way-of-life, gatinho-do-condomínio a creiço-botocudo. Maravilha, diversidade máxima.
Rituais. Tinha menina com 60 canetas em cima da mesa, outra com um saco de Sonho de Valsa, um carinha com um escapulário e logo ali tinha o Buda de olhos fechados, em transe. Me deu vontade de fazer uma mandinga, uma simpatia, mas super sei que sou um caso perdido para os bons e maus espíritos.
A prova é grande, mas não difícil at all. Os enunciados praticamente respondem pra você, iguais aqueles professores que falam metade da palavra pra turma completar. “- É importante a educa...?” “–Ção!”. Didático. Eu só lia as questões e as alternativas uma única vez. Minha letra favorita, em casos omissos, foi a ‘C”. As provas de Linguagem e Humanas eram puro contexto, referências de vida, já as de Exatas e Matemática, HAHAHAH, eu pulei porque não sou obrigado.
Olha, depravação geral os erros de impressão do Planeta INEP. Gente, coitada da galera. Enfim, foi uma experiência interessante, mesmo tendo que ir pro CAIC do Inferno fazer a prova. Sou empático com a dor e confusão daquelas pessoas. Comecei meu curso assim e eu me surpreendi que ainda não me sinto do jeito que achei que me sentiria quando estivesse no ensino superior. Bela bosta. Quase me formando, fico apreensivo com minha carreira, meu salário abaixo do mínimo, minha competência meramente normal. Roberto Justus me humilharia. Tenho medo.

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