segunda-feira, 15 de novembro de 2010

5ª Mostra Cinema e Direitos Humanos.

Das produções que vi ontem, gostaria de ressaltar quatro. Lógico que ‘ressaltar’ não é o melhor termo visto minha pífia influência e domínio do assunto. Sei meu lugar de consumidor: o “consumo serve pra pensar”, diz um antropólogo argentino que estou tendo que amar esses dias.

O primeiro curta foi Carreto. O filme é quase em tons-de-cinza, dado o colorido da vida dos personagens. O que me ficou foi aquele clima de exclusão X esperança. Não, me expressei mal. Na verdade me lembrou o Caçador de Pipas. Sabe quando todo mundo achava que o Afeganistão era terra dos filhos-do-capeta-armados-até-os-dentes? Daí o filme/livro mostrou uma convivência tão problemática quanto qualquer outra, onde relações de afeto não são sempre dominadas pelo medo, pela fome, pela dor etc. É a mesma coisa com A Menina que Roubava Livros. Os planos de fundo são realidades adversas, insalubres, mas a vida e suas tonalidades encontram uma forma de se expressar – e sob essa linha constrói-se uma zona de sensibilidade que eu gosto bastante de conseguir perceber. O agravante, penso, não é a apenas a situação de conflito, mas a maligna representação (e aceitação) dele.


Cena de Bailão.

O Segundo curta foi Bailão. No site da Mostra, a descrição me contempla: “A memória de uma geração visitada por seus personagens. O cenário é o centro de uma grande cidade; o enredo, a urgência da vida. E o Bailão, o ponto de convergência dessas histórias”. São senhores, gays, que relatam o seu passado, construindo uma percepção daquela época e de como ela avançou. Ao fim, se nota realmente o Bailão não é apenas um lugar no submundo, mas funciona como conector da trajetória dessas pessoas. Uma sensação que eu me atentei foi a de perda, a de vazio – cujo tempo é o motor. Não sei se era o foco da obra, mas, e não nego minha subjetiva visão, a narrativa que o curta conseguiu construir me fez sentir isso.


Cena de Defensa 1464

Terceiro filme que vi foi o DEFENSA 1464. Documentário sobre a negação do patrimônio Afro na Argentina. Hipocrisia histórica total. O filme é um trabalho de resgate. Gente, eu não acredito na pureza de nada, tampouco em originalidade. “No fundo, somos todos irmãos, se somos filhos da mesma mãe”, diz uma personagem. Bem, a mãe desconheço, mas o pai é Darwin.


Cena de Eu Não Quero Voltar Sozinho

Último curta foi o que mais queria ver. EU NÃO QUERO VOLTAR SOZINHO fala da diferença dentro da diferença. É, porque ser diferente, até certo ponto, tudo bem, tem limites - é o que a gente aprende. Achei muito bem trabalhado o ambiente de colegial, de descobertas e aflições (bastante próximos aos que eu cresci com). Não me liguei no clima de romance, preferi me focar na idéia de fronteira. Um mundo que vê e outro que não quer enxergar a riqueza das possibilidades de existir - os limites que nos impomos em nos adequar. A vontade (consciente ou não) de atravessar barreiras.

*As imagens das cenas foram tiradas com um celular e não pretendem cópia indevida de contúdo.

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