Pra chegar nas Coroas é preciso ir de barco. Me senti No Limite. Prova da Travessia. Iam jogar todo mundo na água. Nadem por suas vidas. Sem condições. Zeca ia ter que quebrar meu amuleto. Entretanto, orientados pelos guias do caboclo, conseguimos fácil.
É um fenômeno cíclico, quando o rio seca muito, as coroas aparecem. Uma vez, em 2007, ou antes, não me lembro bem, nem era preciso ir de barco. Tinha até estacionamento. Por ser entre os estados do Piauí e Maranhão, é Terra de Ninguém. E só Ninguém vai resolver a regulamentação do troço. Daí, por um período de tempo, bares improvisados ocupam o local. Lazer ou trangressão?
Tudo funcionava com um singelo motor à diesel. Tranqüilo, até que ele parou e pensei, “oi?vou morrer aqui, sério?”. Só um susto. Estar naquele ambiente "ilegal", levantou várias questões confusas. O Luis soltou a máxima “gente, joga copo no chão não, vamos preservar a Coroa”. QQQ. Daí eu olhei em volta e agradeci usando todo o pulmão: “Obrigado lavadores de carros das encostas, obrigado esgoto da zona Leste, obrigado banhistas afogados...”. E tem gente que não curte o progresso ambiental: ele tem um lado bom um melhor ainda. Hahahaha. Quando o rio vira mar, quem não curte?
Lá, bebendo fora do mapa, tava fazendo um ventinho ótimo, coisa rara por aqui. Tinha até uma fogueira estranhíssima. Só em Teresina pra gente ainda fazer fogueira quando corre um ventinho mais ameno. Em certo momento deixei o pessoal da mesa, fui andar pela areia, tentando não pensar em álcool gel. Fiquei alguns metros da água, ouvindo o Hernane Felipe, que tava tocando lá também no dia (depois agradeci, conversei com ele e comprei um cd). Chorei, chorei, chorei. Essa vibe destrutiva da crise dos 20.
Fomos embora depois das três da madruga, arriscando perder algo além da dignidade, já que o toque de recolher não vale fora de Teresina. Super rebeldia. No caminho pra casa, um bar, um lanchinho. E minha consciência de gordo só ganha espaço.

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