segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Verão da Ocupação

Quando o relógio marcou 18h, o pessoal da agência se preparou pra ir pra casa. Acertamos quem ia com quem, naquela carona amiga. O céu ameaçava uma dessas chuvas estranhas e apocalípticas que chovem por aqui, do nada. Desde a semana passada, os ônibus não circulam no horário ou simplesmente não circulam. Com a turma, peguei a rota até um ponto, medianamente distante da minha casa. Segui a pé porque não estava exausto, nem de mal humor. Passei na padaria, comprei um bolo e ensaiava como pedir para minha tia, que vai passar esses dois dias aqui em casa, pra fazer café. Ouvindo Diorama, pra mim o melhor e irretocável álbum do Silverchair, fiquei divagando com meus botões o quanto admiro aqueles que estavam, naquele momento, e mesmo antes disso, nas duras manifestações contra o aumento da passagem dos coletivos.

Moro, estudo e trabalho aqui. Sou empático e me identifico com o que aqui acontece. De manhã, ligo a TV enquanto me arrumo. Pra chegar no trabalho, pego duas conduções, então saio cedo. Quando chego, uns 40 minutos depois, leio os jornais, marco as matérias de interesse para os clientes de assessoria. Vou pra minha mesa, vejo os portais e alguns blogs. Faz algum tempo, as manchetes são parecidas. Falam, com alguns adjetivos mais ou menos sutis, de estudantes nas ruas. Alguns deles são meus amigos, por isso me preocupo e faço questão de acompanhar nos jornais, na televisão e principalmente nas redes sociais, no calor do front, onde ocasionalmente entram em conflito com policiais armados.

Teresina, neste janeiro, pela segunda vez vive um movimento denominado por seus participantes de #Contraoaumento. Em outubro do ano passado, o aumento anual na tarifa de transporte coletivo foi anunciado, gerando indignação não só de estudantes, como apontam erroneamente, mas de toda população. Um aumento deveras injusto visto que os trechos não são extensos (em sua maioria), não tínhamos uma frota conveniente à demanda, ônibus bem estruturados, muito menos integração. No primeiro dia, menos de 100 pessoas se uniram à manifestação e em resposta levaram muitos hematomas e spray de pimenta nos olhos de nossa polícia despreparada, truculenta e autoritária. No quinto dia, surpresa, aqueles 100 tornaram-se milhares – fala-se em mais de 20 mil. Organizados, deram uma aula de pressão pública. O decreto que aumentava o valor da tarifa foi revogado. O Fórum Estadual em Defesa do Transporte Público de Teresina encheu os pulmões de ânimo. O movimento foi vitorioso, ao contrário de tantas outros que tentaram barrar o mesmo abuso e, infelizmente, não o foram. Comemorei, todos comemoramos, nos sentimos orgulhosos. Na época escrevi uma nota de apoio aos que conseguiram - nem quero dar lições, sabe, deixo essa parte para os mais audaciosos. Ela permanece atual:

Na lama, sujam-se todos

A Cidade não é uma obra de arte, intocável, imaculada. Não é só paisagem, onde a vida segue sem sobressaltos. Ela deve ser praticada e isso quer dizer que ela é capaz de transparecer em seus relevos aquilo que seus habitantes são e sentem. Pichação, depredação, fogo - antes de serem imediatamente consideradas vandalismo, traduzem também a revolta de pessoas tratadas feito gado, obedecendo a regras que não as favorecem (o caminho do abate). O exercício do poder é um constante desequilíbrio e são em momentos como esse, pelo qual Teresina passa que enxergamos quem são seus atores e de que forma a balança funciona - em um enorme paradoxo. Em todo o caso, entre ânimo e frustração, entre crença e cinismo, escolho estar entre os que lutam, os que amam e mudam as coisas.


De lá pra cá, a diferença real é uma faixa azul e um protótipo de integração entre as linhas. O fracasso, em caps lock neon, de um planejamento técnico equivocado. Não justificado o aumento, de novo nas ruas, as manifestações se repetem e, mais uma vez, as apóio, acho importante frisar. Não pude/posso participar ativamente por causa da jornada de trabalho. Os transtornos, relevo, aceito o incômodo como quem toma uma vacina – é necessário. Uso ônibus não por diversão, nem por antropologia. É uma necessidade real, vital talvez. E meus medos são assim traduzidos:

“Na medida em que o mercado não reconhece direitos, a função central que ele vai assumindo na reformulação das relações econômicas e sociais representa uma transformação do que era direito em um bem negociável no mercado. Assim, de direitos universais os direitos à educação e à saúde passaram a ser mercadorias, e, concomitantemente, o Estado deixou de desempenhar seu papel na afirmação de direitos, para, ao contrário, centralizando-se em políticas de desregulamentação, abrir espaços para a mercantilização crescente de políticas sociais.” – Laboratório de Políticas Públicas da UERJ

Mas meus sentimentos não cabem em etiquetas.

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