terça-feira, 3 de maio de 2011

“I would prefer not to”

Antes achava que minha preguiça era sobrenatural, mas hoje sei qual é o meu problema. Cinco anos atrás, quando descobri não o neguei, pelo contrário, aceitei de pronto. Me traduziu, me colocou no colo e desde então me dá beijos de boa noite. A história original é a de um escrituário que, pouco a pouco, se nega a executar suas tarefas - de início simples renuncias, até chegar ao nível de não fazer mais absolutamente coisa alguma. Estritamente nada. Então se torna, finalmente, uma nulidade. Eu cheguei a pensar que se tratava de uma catarse, mas a epifania não veio. A Síndrome de Bartleby é isto: uma incapacidade quase mórbida de colocar sentido nas coisas e, consequentemente, agir.
Chegou a manhã seguinte.
- Bartleby - falei, chamando-o gentilmente por trás de seu biombo.
Sem resposta.
- Bartleby - falei de modo ainda mais gentil -, venha aqui. Não vou pedir-lhe que faça qualquer coisa que você prefira não fazer. Apenas desejo falar-lhe.
Com isso, ele surgiu silenciosamente diante de mim.
- Você pode dizer-me, Bartleby, onde nasceu’?
- Prefiro não dizer.
- Você me contaria alguma coisa sobre a sua vida?
- Prefiro não contar.
- Mas qual objeção razoável você pode ter quanto a falar comigo? Bartleby, eu me considero seu amigo.
Não olhou para mim enquanto eu falava, mas manteve o olhar fixo no busto de Cícero, que, do modo como me encontrava sentado, estava exatamente atrás de mim, cerca de quinze centímetros acima de minha cabeça.
- Qual é a sua resposta, Bartleby? - perguntei, depois de esperar um tempo considerável por uma manifestação de sua parte, durante o qual sua fisionomia manteve-se imóvel, a não ser por um levíssimo tremor de sua boca pálida.
- No momento, prefiro não responder - falou, retirando-se em seguida para seu canto.

Hermam Melville - Bartleby, o Escrituário que você pode baixar e se desesperar depois aqui. Googlei o assunto e achei esse post da Juliana. É a história de toda uma geração.

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